Opinião: Emanuel Furtado | As vacinas

Quando se começou a falar de vacinas, a grande maioria dos portugueses referia-se a elas com muitas cautelas, numa lógica de esperar para ver, pois “não vá o diabo tecê-las” … Agora, que se está em plena terceira vaga da pandemia, o sentimento de cautela deu lugar a uma voragem para ver quem se safa mais e é vacinado antes de todos os outros.

É certo que quem pensa assim é uma minoria (espero eu) tão típica do chico-espertismo português que todos conhecemos… do tentar arranjar um subterfúgio para obter vantagens indevidas à custa dos demais. Certamente, terá raízes nos cerca de 50 anos de jugo ditatorial do antigo regime.

Muitos dos “aproveitamentos” indevidos resultam de sobras, num determinado contexto de administração da vacina, por via de supostas falhas na gestão da vacinação. Terá havido algum abuso? Não tenho dúvidas. Têm é de ser averiguadas as responsabilidades e atuar com “mão-dura” para que não volte a suceder.

Ora, a agudização deste problema advém também do atraso, que as farmacêuticas anunciaram, nas entregas do número de vacinas contratualizado com a Comissão Europeia.

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Por outro lado, o governo foi tíbio, quando se tratou de vacinar os mais altos cargos do Estado. Primeiro, pecou por defeito e, agora, peca por excesso. A chefia do País não pode estar refém de populismos bacocos.

Não se trata de vacinar o político A ou o político B. Trata-se, sim, de quem está nos comandos da gestão da pandemia ter de ser vacinado.

Não podemos ter ministros em casa com Covid-19. Deste modo, o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-ministro, os deputados da Comissão permanente da Assembleia da República, bem como os ministros de Estado e os que estão mais diretamente ligados à gestão da pandemia, independentemente de serem menos ou mais idosos ou de terem menos ou mais patologias, já deveriam ter sido vacinados.

Mais, não se pode ceder ao populismo de alguns que a única coisa que visam é cavalgar uma onda de revolta, mais uma vez contra os políticos e as suas supostas benesses. Ora, o país não pode estar refém desses populistas e não pode dar-se ao luxo de, eventualmente, ficar sem liderança numa altura como esta.

Por cá, o Governo mostra muita falta de segurança na implementação da vacinação, tendo-se tornado refém dos caprichos do senhor deputado do PPM-CDS, eleito pelo Corvo, o qual, segundo se sabe, numa lógica de “quero, posso e mando”, exigiu que a população desta ilha fosse vacinada antes de todas as outras.

Não existe critério algum quer sob o ponto de vista de saúde pública ou científico que sustente essa decisão. Apenas e tão só critérios de ordem política, estes, sim, muito perniciosos para a coesão dos nossos Açores. De bradar…

Por fim, quero manifestar o meu repúdio por um episódio na sessão plenária da semana passada, onde se assistiu a intervenções que revelam muita falta de formação, falta de educação e falta de respeito pelos mais elementares princípios parlamentares e democráticos. Refiro-me às intervenções de dois senhores deputados sobre as atrocidades perpetradas por alguns regimes do século passado, imputando-as ao deputado do BE. Começo pelo sr. deputado do Corvo.

Este senhor deputado, com os conhecimentos de História que possui, tem a obrigação moral, ética e científica de não proferir aquelas declarações/acusações. O facto de ser político, atualmente, não pode fazer com que os seus conhecimentos científicos passem para segundo plano e faça deles tábua rasa, sob pena de ser considerado um desqualificado. Que me lembre, nunca ouvi ninguém imputar-lhe os crimes da monarquia portuguesa ao longo dos séculos… e foram muitos!

Por outro lado, o senhor deputado do Chega, que não tendo conhecimentos históricos – claramente foi o que demonstrou e precisava de estudar um pouco mais – alinhou pelo mesmo tipo de verborreia, acusando o deputado do BE de ter as mãos sujas de sangue. Trata-se de um insulto não só político, mas também pessoal. Gente malformada, gente mal-educada.

Episódios desta natureza em nada dignificam a Casa Maior da Autonomia açoriana. Os açorianos merecem melhor!

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