Opinião: Emanuel Furtado | A “direitonça”

Política e afins OPINIÃO | Emanuel Furtado

No meu anterior artigo de opinião, advoguei que o PS e o PSD estavam condenados a entenderem-se. Fi-lo porque entendi que o que nos espera para 2021 e, possivelmente, para 2022 não será fácil em termos económicos e sociais. Não sendo ingénuo, bem sei que, do ponto de vista estritamente político, uma governação do bloco central acicataria extremismos porque as frustrações dos eleitores cairiam sempre para os extremos. Isto não é novidade. Mas situação que, com grande probabilidade, viveremos nos anos seguintes exigiria mais tanto do PS como do PSD.

Enganei-me na análise, não me custa nada reconhecê-lo.

Então, o que sucedeu de segunda-feira até hoje?

Primeiro, o PSD, o CDS-PP e o PPM, numa lógica estritamente aritmética, 26 contra 25 do PS, apresentaram-se, em conferência de imprensa, a partir da Sede do Parlamento Regional, com o anúncio de um acordo de governação, referindo que acordaram e cito: “uma proposta de governação profundamente autonómica”, um “governo dos Açores para os Açores” e com “total respeito e compreensão pela pluralidade representativa do povo”. Nem uma palavra sobre o dito acordo, nem uma linha de orientação programática.

Nos dias seguintes, foi uma azáfama de declarações de cá e de lá, mais de lá do que de cá, em que, num dia, se dizia uma coisa e, no dia seguinte, o seu contrário. Mais, num dia, por cá, proferia-se uma determinada declaração e, de lá e no mesmo dia, era proferido o seu contrário.

Essa semana foi, pois, de uma incredulidade espantosa, tais foram os jogos de sombras e as cortinas de fumo criadas. E os açorianos, literalmente, a ver navios…

Ainda durante esta semana, o PSD insistiu em fazer comparações com 2015, em que o PS juntamente com o BE, o PCP e o PEV votaram contra o programa de governo da PàF (coligação entre PSD e CDS-PP), assumindo o PS a governação do país, fazendo crer que se tratava de uma “revanche”. Houve, aliás, destacados dirigentes do PSD que, em resposta à pergunta: “Se em 2015 não tivesse havido a geringonça, isto era possível em 2020, nos Açores?”, afirmavam perentoriamente: “Claro que não! Os açorianos não entenderiam”. Portanto, está tudo dito sobre o que vai nas mentes dos dirigentes do PSD: apear o PS do poder porque a única cola entre os partidos que formam a “direitonça” é um ódio visceral ao PS, coisa que, democraticamente não é aceitável.

Até aqui, ainda assim, tudo parece mais ou menos normal…

O que não é normal é o PSD de cá e de lá incorrerem num risco demasiadamente perigoso: a normalização de um partido populista, demagogo, xenófobo, racista, desumanista e membro de uma família política europeia medieval, na companhia de Le Pen e Salvini, entre outros.

Isto é revelador de uma profunda enfermidade dentro do PSD, pois defrauda os ideais democráticos que o fizeram nascer e crescer enquanto partido. Com isto, o PSD fragiliza a via democrática e coloca-se a si mesmo do lado da via populista e totalitária.

Sá Carneiro estará, neste momento, a dar voltas no túmulo.

O PSD Açores está convencido que, pelo facto de o Chega Açores ser liderado por dois ex-PSD’s, será fácil chegar a consensos. Pode ser um erro! O Chega Açores constituir-se-á como grupo parlamentar e Ventura imporá, a seu belo prazer, os assistentes e assessores parlamentares provenientes de lá, numa visão profundamente anti-autonómica. Por isso, nada de bom se augura para o futuro.

O PSD, durante esta semana, dedicou-se, portanto, a um enorme contorcionismo político por forma a chegar ao poder a qualquer custo.

Como disse Vasco Cordeiro, na sua comunicação de hoje: esta solução padece de ter “Lisboa a mais e Açores a menos.”

Numa palavra, uma macacada!

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