Opinião: Célia Pereira | Percursos e histórias de vida: dependências, tormenta das famílias

Os três D – Desemprego, Doença e Divórcio – constituem os três principais motivos de entrada na pobreza conforme referem diversos estudos científicos. Mas a referência a esta perspetiva não pode descurar a influência dos fatores políticos, sociais e estruturais que contribuem para a produção e reprodução da pobreza na sociedade. Isto é, o contexto social em que os três D acontecem impacta, de forma diferenciada, a vida das pessoas consoante as redes de apoio social que têm ou não disponíveis.

Com esta premissa, impõe-se questionar como podemos construir uma estrutura social mais resiliente e efetiva, mais integrada nas respostas a assegurar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Não há receitas. Não há milagres.

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A maioria não entende a pobreza. Ou porque a sente na pele. Ou porque, com incómodo, a vê perto de si. Ou porque com indiferença a vê à distância.

Por estes dias mendicidade e dependências, o rosto mais visível e sombrio da pobreza, voltam a ser notícia. Os efeitos da pandemia e da severidade dos consumos das drogas sintéticas fizeram recrudescer e agravar, na Região, e em particular em São Miguel, este problema social já de si muito grave.

A sociedade civil e representantes empresariais indignam-se. Pedem medidas, exigem soluções. Mas, mais do que manifestação de boa vontade política, urge definir uma Estratégia, empreender Planos de Ação Local integrados. Articular entre os vários níveis de governança, mobilizar recursos, comprometer as entidades públicas e privadas, envolver a sociedade.

É, pois, incompreensível o esquecimento a que foi votada a Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social 2018-2028. Não é plausível o desinvestimento na Rede de Polos Locais de Desenvolvimento e Coesão Social, cujas ações e projetos foram descontinuados deixando sem rede estas comunidades e, ainda, mais vulneráveis centenas de pessoas.

É preciso vontade política. É preciso agir.

Nós e os outros. Gostam alguns de assumir. Só é pobre quem quer, quem não quer trabalhar. Gastar dinheiro com drogados e vagabundos é mal empregue. Pensam muitos, dizem alguns.

O olhar distanciado de quem não entende o que atira as pessoas para a situação de pobreza, o que as mantém naquele estado e as impede de emergir.

Muitos há que são pobres antes de o ser. Pobres nas competências, na saúde mental, na vinculação e laços familiares. Pobres na comunidade e na identidade, na capacidade de ter voz.

Ser doente mental é um fator de risco para se ser pobre. Muitos só não estão na rua porque têm uma família que os suporta e sustenta. Mas também os imigrantes, sobretudo os oriundos de determinados países, devido ao estigma, são mais vulneráveis e em risco de exclusão social. Ou outros, como tende a ser o caso dos ciganos, porque a sua cultura de pertença ainda é impeditiva de acederem à educação e ao emprego, especialmente as mulheres.

O combate à pobreza impõe conhecer os territórios, as pessoas e as vivências de quem os habita. Urge construir processos inclusivos de diálogo e cooperação entre Estado, poder local, agentes sociais e comunidade. Urge reativar a Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social.

Espera-se dos governantes este conhecimento para a adequada definição das políticas públicas e, sobretudo, competência para a sua implementação e operacionalização.

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