Opinião: Célia Pereira | Contradições e outros paradoxos

A (re)interpretação realizada pelos partidos da coligação aos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o Inquérito ao Rendimento e Condições de Vida, relativos a 2021, tem tanto de surpreendente como de inusitado.

Não surpreende pelo tom da conferencia de imprensa, um discurso de ódio carregado de ataques ao Partido Socialista e aos seus líderes, a quem usam e costumam culpar por todos os males. Mas, surpreende pelo atrevimento com que baralham os dados do INE e a respetiva cronologia para, em jeito de escudo, contradizerem o que o inquérito do INE revela e se escusarem a assumir responsabilidades por mais um desaire governativo.

Inusitado pela mensagem que o comunicado faz passar de uma liderança governativa alheada da realidade que, sem pudor, tece inverdades fantasiosas, a fazer lembrar o Mito da Caverna de Platão.

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Negar que os Açores foram, em 2021, a Região mais desigual do país, que teve um aumento de 11% na Taxa de Privação Material e Social Severa e que o Risco de Pobreza aumentou cerca de 15% não contribui, em nada, para o desafio de pensar e desenhar respostas e medidas que as necessidades e dificuldades das famílias e das empresas Açorianas pedem e impõem.

Diz-se que, onde há uma vontade, há um caminho. E, este governo, já assumiu que a sua motivação é manter-se no poder e não governar. O compromisso deste Governo não é, como devia, com os Açores e com os Açorianos. O compromisso deste Governo está refém dos interesses e das agendas dos cinco partidos que o suportam.

Como o Partido Socialista tem vindo a afirmar “A degradação dos indicadores nos Açores revela, é que o que o atual Governo Regional do PSD-CDS-PPM-CHEGA e Iniciativa Liberal está a fazer é a tornar os Açores e os Açorianos, mais pobres, mais vulneráveis e a nossa sociedade mais desigual.”

Veja-se as consequências e efeitos que a cativação de 25% das dotações de despesas de investimento de 2023, em todas as ações sem financiamento através de fundos comunitários, implicarão comprometendo e ameaçando o desenvolvimento e crescimento económico da região nos diversos setores de atividade. Implicações tanto mais preocupantes no atual quadro de crise e iminente contração da economia regional.

É esta a estratégia para promover o desenvolvimento económico e social da Região?

É este o caminho para a coesão territorial das 9 Ilhas dos Açores?

É este o caminho para a melhoria das condições de vida dos Açorianos?

O erro faz parte da natureza humana, do processo de avaliar, de decidir e de agir. Reconhecer que se errou não é para todos. Persistir no erro ou não assumir que se errou é paradigmático de quem se acha senhor da razão. Sinal de alheamento e meio caminho andado para a queda em precipício.

Não reconhecer e negar o retrocesso da Região, face aos indicadores de pobreza que os dados do INE apontam, demonstra bem a agonia de não se ter rasgo para traçar um rumo que leve os Açores e os Açorianos para a frente. Um rumo para um futuro que se quer melhor.

A incapacidade deste Governo em reconhecer que é preciso alinhar esforços e carregar baterias para salvaguardar os Açores desta crise deixa os Açores e os Açorianos à mercê de mais incertezas e infortúnios.

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