Opinião: Alexandra Manes | Mais vítimas do Turismo

Com 14 anos rumei das Flores a São Miguel para estudar. Nos anos 90, ainda o ensino obrigatório era até ao 9.º ano, muitos foram os adolescentes e jovens que saíram das sua ilhas para estudar. Horta, Angra do Heroísmo e Ponta Delgada eram as cidades destino.

Tive a sorte de o meu pai ter tido a possibilidade de me proporcionar a opção de prosseguir nos estudos e perseguir objetivos, metas, ambições e sonhos.

Recordo-me que devido à vasta oferta de alojamento, o que foi difícil acabou por ser a escolha do melhor espaço. Fiquei-me pela rua do Negrão.

Mais tarde vim para a Terceira e, também, não tive dificuldade em arranjar espaço para mim. Acabei por ficar por São Carlos.

Em ambas as ilhas e em décadas diferentes, conviviam estudantes do ensino secundário e universitários. Acabávamos, por vezes, a dividir o mesmo espaço. Era o tempo em que o polo universitário da Terceira era procurado pela sua diversidade e qualidade dos cursos ministrados. Angra do Heroísmo, durante anos, os tantos em que não permitiu a fuga de cursos e professores para Ponta Delgada, foi uma cidade universitária, onde era facilmente identificável a dinâmica que era trazida por estes jovens.

Na verdade, e falo de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada, mesmo com alunos do ensino secundário e universitário, estas duas cidades, tinham sempre alojamento disponível.

Hoje é diferente! As casas que, normalmente, serviam ao arrendamento de longa duração, ou mesmo as que disponibilizavam quartos, estão agora ao serviço do turismo. Uma opção dos seus proprietários que como a própria designação indica, fazem o que lhes é permitido.

É inegável o “boom” turístico de que a nossa região foi alvo. Hotéis esgotados, restaurantes cheios, viaturas de aluguer esgotadas, táxis em falta, redistribuição de riqueza: a mesma injustiça de sempre.

A procura pela nossa região trouxe, à semelhança de as grandes cidades, em Portugal continental, uma carência acentuada de habitação disponível para jovens universitários de outras ilhas ou do continente.

É hora de repensar muito bem o efeito que a turistificação começa a ter nos Açores. Não é só Lisboa e Porto que estão a mudar e a mandar “os seus” embora.

É hora de pensar se queremos a vinda de jovens para frequentar a Universidade dos Açores, Se queremos que os nossos jovens ingressem no ensino superior e se lhes permitimos essa oportunidade, na sua plenitude.

A tendência é de aumento do turismo. Prevê-se que mais espaços se destinem a esse setor. Como tal, o problema com que alunos e pais se defrontam tenderá a piorar.

É necessário debelar esse problema. É por isso que o BE defende a criação imediata de um apoio ao pagamento de renda de habitação para os estudantes deslocados que frequentem o ensino superior na Região ou no continente. Para resolver o problema estrutural a solução passa por aumentar o número de residências universitárias através da conversão de edifícios do Governo Regional ou das autarquias e através de protocolos realizados entre a Região e a Universidade dos Açores (UAç).

Qual será a posição do Governo Regional? É fácil de perceber que, embora com mais 350 mil euros de apoio à UAç, a grande aposta pretende ser, não nas escolas profissionais porque até a única escola profissional pública querem extinguir, mas sim na qualificação das pessoas, sem que isso represente melhor salário…Mais uma vez, enfiar a cabeça na areia e fazer que está tudo bem, até à próxima viagem?

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