Opinião: Alexandra Manes | Estratégias para a decadência cultural

Nunca pensei ter de escrever semelhante texto e, como tal, vou procurar ser sucinta e cingir-me ao que me parece ser de senso comum. É que o atual Governo dos Açores, na figura da sua Secretária Regional da Educação e dos Assuntos Culturais, e respetivo Diretor Regional, assumiram recentemente a decisão de que a literatura não interessa à Região. Ou melhor, afirmaram que a Região não participa na Feira do Livro em Lisboa, o que é praticamente a mesma coisa.

Pois bem, vamos então por partes.

Jamais me passaria pela cabeça que algum dia teria de recordar aos máximos responsáveis pela cultura no arquipélago dos Açores que esta é a terra de Natália Correia, Vitorino Nemésio, Antero de Quental e de tantas e tantos outros mestres das letras e das palavras traçadas em papel. Por estes dias vivemos um momento de renascimento dessa arte insular, com a publicação sucessiva de obras de relevante interesse, por escritoras e escritores contemporâneos que vão ganhando destaque, cá e lá.

Alguns talvez até acabem esquecidos, porque os tempos em que vivemos são duros, e sem o apoio necessário, correrão o risco de seguir o mesmo caminho de Márcio Vargas, o afinador que acabou “expulso” por falta de condições.

Poderão os responsáveis máximos pela cultura no arquipélago dos Açores perguntarem-se, entre resmungos, que mais condições poderiam dar, face às dificuldades económicas em que vivemos. A resposta parece relativamente simples e evidente. A participação na Feira do Livro de Lisboa foi feita de forma repetida e sistemática ao longo dos últimos anos, abrindo-se apenas exceção para o contexto pandémico, e os custos da mesma sempre foram relativamente contidos, ao que é possível apurar, passando os olhos por orçamentos de anos anteriores.

Os seus efeitos podem até não parecer imediatos, mas são eficazes, mais não seja pelo fator de promoção das e dos nossos artistas. Talvez quem não conheça bem as realidades mais periféricas possa desvalorizar esse impacto, mas quem desejar sair da cúpula de poder ensimesmado onde vivem os atuais governantes, rapidamente irá perceber que assim o é. Perguntem-no às editoras regionais, que vão rastejando entre campos de minas inflacionadas, para sobreviver à total falta de apoio e substância de um Governo mais importado em salvar campos de golfe do que proteger a nossa cultura.

Não digo que a participação na Feira do Livro seja panaceia para todos os males da promoção da literatura, mas também não digo que a sua ausência traga qualquer benefício à Região.

Vem, agora, passados alguns dias, Sofia Ribeiro dizer que a participação na Feira do Livro tem de ser revista porque a região gastou 100 mil euros, nos últimos anos…revelando que não percebe que a Feira do Livro não tem como objetivo o lucro, nem a promoção de hábitos de leitura. E os mais de 3 milhões para um campo de golfe, Sra. Secretária e Sr. Diretor?

Mas a revisão da participação dos Açores nesta importante feira, não poderia ser feita, sem que colocasse em causa a de este ano? No fundo, Sofia Ribeiro assumiu uma pasta, que não era sua, cheia de cacos. Lamento imenso por que Sofia Ribeiro merecia mais respeito por parte de quem a integrou neste governo.

Mas, assim se vive, em regime cada vez menos solidário com as gentes que construíram e vão contruindo a açorianidade.

Nemésio, que tanto fez para enraizar esse conceito, e para nos levar até ao resto do mundo, certamente estremeceria ao ver o que se passa. Pedro da Silveira, mais reservado, talvez fosse capaz de soltar um ou outro impropério. Esse mesmo escritor que será celebrado, este ano, pela efeméride dos cem anos do seu nascimento. A celebração, certamente, não será feita na Feira do Livro. Nunca pensei.

Pedro da Silveira bem sabia o que escrevia quando a Natália Correia, nas suas cartas, referindo-se ao parlamento nacional, lhe dizia: “Bata-lhes sempre, Senhora”.

 

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