Opinião: Alexandra Manes | A praga da violência

Recordo-me do dia em que José Manuel Bolieiro afirmou, alegremente, que a nossa região é uma zona segura, sem uma taxa elevada de crimes graves. No entanto, essa afirmação não corresponde à verdade e, só por si, exemplifica a forma como, ainda, é perspetivada a violência doméstica, na nossa sociedade.

No passado mês de novembro foi notícia o aumento de 5,3% de participações pelo crime de violência doméstica em 2021, face a 2020, nos Açores que apresenta um índice de prevalência dos mais elevados do país.

Este número tem dois tipos de leitura. Por um lado, percebemos que as vítimas começam a romper estereótipos e a enfrentar uma sociedade, que durante muito tempo – tempo demais -, as relegou ao sofrimento entre paredes. Por outro lado, tememos as “cifras negras” – aquelas que não são denunciadas e que, certamente, adensariam o número.

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Medo, exaustão, insegurança, dependência financeira, filhos e desconhecimento das respostas atuais são, na maioria das vezes, razões para que não concretizem a queixa de que são vítimas de violência física e/ou psicológica, verbal, financeira. Abdicam da sua liberdade, da sua vida, para sobreviverem todos os dias, até que a agressão seja fatal.

É, com base na nossa realidade, que nos cabe a todas e a todos trabalhar de forma concertada para debelar este flagelo social que não tem estatuto social, idade, nem grau académico.

Trabalhar na sensibilização, desde tenra idade – através da gestão de emoções -, para que as crianças sejam veículos da mensagem e para que não reproduzam comportamentos de ciúmes e de possessividade, na sua juventude.

Apoiar e ouvir as associações existentes que estão no terreno, que conhecem os meandros deste crime, desempenhando um papel fundamental nesta problemática.

Trabalhar no sentido de facilitar a denuncia. De forma imediata e silenciosa. Partindo da dificuldade de verbalizar o momento de violência, o BE/Açores apresentou e conseguiu fazer aprovar uma iniciativa que possibilita mais um mecanismo para a denúncia.

No fundo, é um mecanismo que se adapta à evolução das tecnologias e que concretiza a denuncia através de um recurso que grande parte da população tem: telemóvel. A sociedade terá mais um canal para ajudar a debelar este crime hediondo. As vítimas poderão enviar uma SMS pré-definida, sem ter de sufocar as lágrimas para falar.

Por outro lado, o debate desta proposta deixou, ainda mais, clara a necessidade urgente que existe na divulgação e aprofundamento da Linha Regional Contra a Violência – 800 27 28 29, que por via da iniciativa do BE terá o seu horário de funcionamento ampliado, de modo a garantir o atendimento durante 24 horas.

No combate a esta chaga social todas e todos somos importantes. Cabe a todas e a todos nós, enquanto sociedade, a partilha da mensagem do quão errado é o ato de hegemonia sob quem partilha ou partilhou a vida connosco.

 

Boas Festas. Em segurança.

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