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João Bosco Mota Amaral, foi orador na sessão do Clube de História, promovido pela Fundação Sousa d’Oliveira, acerca dos ’45 anos depois… o 25 de abril e o seu impacto nos Açores’.

Nesta sessão, o mesmo afirmou que «E os Açores… Aconteceu que o grande movimento da mudança, do nosso estatuto constitucional, é de facto um momento revolucionário na região. Tenho a dizer, que se não tivesse sido uma revolução, não se teria chegado a este ponto. A actualização e modernização nunca tinham existido antes, pelas nossas estruturas administrativas. Aliás, no princípio foi isso que se sucedeu. Deu-se o ‘25 de abril’ e o país mudou. Como vai ser agora? A primeira ideia foi democratizar as Juntas Gerais. Aquele isolamento das ilhas umas das outras, parecia que era irreversível, que era invencível. Era um dos projectos daquele tempo. O PPD na altura.»

Acrescenta ainda que «era uma forma de o Governo se meter nas Juntas Gerais. Acabar com a tutela do Governador Civil.» E que foi para «dar um primeiro passo numa aproximação regional. A criação de uma Assembleia representativa do povo açoriano. Que se estabelecesse uma comissão executiva encarregada das Juntas Gerais. Mas a ideia é que cada distrito teria a sua identidade própria. Ideia recorrente na altura.»

Mais adiante disse que «a ideia de Portugal no Império vem de trás. Foi mudada e adaptada pelo Estado Novo. E marca os regimes políticos portugueses. A Monarquia, a República.»

Reforça ainda que «Já em 1933… fazia parte da função e natureza portuguesa colonizar os povos adversos ao progresso. (…) como se provou que quando terminou o domínio imperial, parece que o nosso país subiu. Melhorou a qualidade de vida. Progrediu. Está noutro capítulo da sua história. Capitulo esse que é de afinação do pacto europeu, com dificuldades, com problemas. Mas a maior parte dos problemas não vem do ‘25 abril’, vêm da má conduta, as más políticas que conduziram ao endividamento. Para além das políticas erradas, também existe a corrupção. E a maior parte do problema anda por aí a ser cantado e nós desesperados pela injustiça que isso representa.»

«Aqui nos Açores tivemos esse sobressalto cívico da revolução. E a expressão desse sobressalto vê-se no independentismo. Se as pessoas querem seguir esse caminho. Se o país muda, também queremos mudar. Se a autodeterminação e independência é para todos, também é para nós.»

Afirmou que «Essa independência dá-se primeiro com o mapa, depois com a legislação. (…) com grande vigor a FLA, a Frente de Libertação dos Açores. Não há dúvida que esta ideia da autodeterminação açoriana tinha um vigor enorme. Vinha deitar abaixo esses tais velhos preconceitos e velhos simbolismos dos serviços autónomos. Foi um bom contributo. De aproximar as pessoas, perceber que unidos conseguiriam fazer alguma coisa. Por um caminho que nos obrigava a uma aproximação e usarmos as nossas energias em conjunto. (…) Este movimento independentista veio a perder dinamismo. E a situação em Portugal também mudou e o futuro de Portugal não iria ser uma República de ética e dominada pelos ‘sovietes’.»

«A nossa alteração qualitativa do pós ‘25 de abril’ dá-se com as estruturas políticas e administrativas, nas infra estruturas para o desenvolvimento que permitiram proporcionar as nossas ilhas de sociedades modernas. Aeroportos, portos, escolas, hospitais, … Tudo isso que não existia.»

Relembra os presentes que quando se candidatara a deputado, em 1969, numa sessão de esclarecimento nos Arrifes, o grande tema de irritação era que «não havia electricidade. Nos Arrifes, à porta de Ponta Delgada. (…) Onde a electrificação de São Miguel só termina em 1980.»

Ainda diz que «a sociedade açoriana é muito estratificada. Haviam classes inultrapassáveis. E uma pessoa que nascesse num determinado patamar iria ficar nesse nível. Isso nota-se nas primeiras listas de composição das Juntas Gerais da primeira autonomia. Quem são os nossos gestores? Os senhores condes, e viscondes. E estávamos nisto.» Continuou desenvolvendo a problemática sobre os industriais que vieram modernizar as culturas que falharam no passado.

«As pessoas andavam descalças naquela altura. A minha escola, em Ponta Delgada, no Campo de São Francisco, uma parte dos alunos iam descalços.» Reforça que o cenário no resto da ilha e das restantes seria pior. «As alterações das condições sociais surgem dessa dinâmica do ’25 de abril’. Desde logo com uma democracia plena, fundada, com participação. (…) O colégio eleitoral foi alargado a toda a gente com mais de 18 anos.»

Também toca no plano europeu e na visão do mundo, onde as relações dos Açores com a América do Norte foram um ponto apresentado e de relevo nesta temática abordada, com o recurso a episódios e à experiência daquele que foi o pai da autonomia dos Açores, a destacar a interação dos presentes com o mesmo na hora das perguntas que evidenciou o espírito existente do independentismo de alguns membros do público.

Para finalizar, o evento começou com a intervenção do presidente da FSO, Carlos Melo Bento, que enalteceu, o «primeiro Governante do Povo Açoriano e por este providencialmente eleito para dirigir os seus destinos durante duas décadas. Quem viveu esse período histórico, recheado de dificuldades e sucessos espetaculares, percebe a verdadeira dimensão de Mota Amaral e a sua capacidade de gerir uma conjuntura dificílima que não poucas vezes se aproximou duma autêntica guerra civil que a sua capacidade de liderança, o seu tato político e diplomático, e a sua infinita paciência conseguiram debelar sem afetar o gigantesco trabalho de arrancar os Açores da pobreza em que vivia, alçando-nos a um patamar inimaginável, antes do seu histórico consulado.»

Este ainda acrescenta que João Bosco Mota Amaral, «Robusteceu a nossa imagem, poder e capacidade de intervenção perante os poderes centrais sempre ciosos e desconfiados e entrou no tablado internacional quer na Europa quer nas Américas com a dignidade que o Povo Açoriano possui e ele dignamente representou. Apoiou o Povo Madeirense e a Madeira, permitindo, numa conjuntura muitíssimo difícil, ajudar a construir o difícil e fantástico aeroporto da pérola do Atlântico, colocando-nos no patamar dos grandes amigos da portugalidade insular, sem que isso molestasse nem pouco mais ou menos, o ritmo avassalador do progresso que imprimiu ao nosso Arquipélago. No plano interno, o estadista respeitou adversários e inimigos, tratando-os democraticamente, e dando um exemplo de democracia como raramente se vê por esse mundo fora. Contra ventos e marés colocou nos eixos os secretos inimigos da democracia e da autonomia, serenamente e com a inteligência superior que Deus lhe deu, galvanizou os que o seguiram, estimulando-os a construir o futuro que outros agora têm nas suas mãos.»

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