Marta Couto: Poupar no mogango para gastar nas pevides

É ponto assente que a cidade da Ribeira Grande, pelos mais diversos motivos, necessita de uma nova ponte, enquadrada no Passeio Atlântico. Nem estando ainda construída, muita tinta já correu por debaixo dela, pelas diferentes visões sobre aquilo que a mesma deveria ser/representar/custar.

Postas as coisas em termos simples, o projeto do anterior executivo camarário apresentava uma estrutura moderna, representando a projeção da Ribeira Grande no futuro e custaria à volta de 2.4 milhões de euros. O projeto foi posteriormente rejeitado por Alexandre Gaudêncio aquando da sua chegada à Câmara, sob o pretexto da “escolha do povo” (leia-se “sua”) por um projeto que fosse mais barato. Surge assim, o projeto do novo tabuleiro – não ponte – da Ribeira Grande, ligando singelamente uma margem da ribeira à outra, sem qualquer traço arquitetónico digno de nota. Mas sim, mais barato. Cerca de 400 mil euros mais barato. Ou era isso que Alexandre Gaudêncio apregoava.

Recentemente, em reunião da Câmara, Alexandre Gaudêncio tentou fazer passar, sem grandes alardes, um adicional ao contrato de adjudicação de empreitada que previa a construção do dito tabuleiro. Em vez de dizer claramente do que se tratava, o presidente transmitiu aos vereadores, de forma branda, que o adicional ao contrato previa uma correção ao valor inicial porque “houve um cálculo que não foi considerado a nível do IVA”. Ora bem, sem ginásticas e indo diretamente ao assunto, como bem explanou o próprio vereador do PSD responsável pelas obras públicas (clarificando aquilo que o seu presidente não quis dizer), o “adicional” refere-se, nada mais, nada menos, a cerca de 321 mil euros, a acrescer aos iniciais cerca de 2 milhões que a ponte custaria. E porquê? Porque este valor é necessário já que incide sobre a consolidação da “ponte” de Alexandre Gaudêncio. Porque os cálculos iniciais do estudo subjacente ao seu projeto foram mal feitos. Porque se tornou necessário um tipo de fundação completamente diferente para que esse tabuleiro pudesse ter condições para suportar o que por cima dele passasse. Por outras palavras, a “ponte” inicialmente apresentada pelo atual executivo camarário não era segura.

Feitas as contas, a Ribeira Grande irá ter, deste modo, um mero passadiço feito de raiz – sem alma, sem elementos diferenciadores, sem qualquer visão de futuro – que custará praticamente o mesmo que o projeto do executivo anterior, de uma verdadeira ponte, que de forma tão revanchista foi enfiado na gaveta por Alexandre Gaudêncio. Ser mais barato já não é desculpa. É ter visão em túnel. O progresso de uma cidade também se faz investindo na sua diferenciação das demais, tornando-a apelativa e – porque não – futurista, de braço dado com a sua História, de forma tão bela representada pela nossa Ponte dos 8 Arcos.

É louvável que Alexandre Gaudêncio queira economizar – como é o seu dever. Pena é que tenha querido economizar num projeto desta envergadura para depois não poupar naquilo que realmente pode e deve. Nesta situação, são mais de 300 mil euros para enterrar nas fundações do dito tabuleiro, bem fundo, onde ninguém os vai ver. É caso para se dizer que o barato afinal não o era e que poderia ter saído muito, mas muito mais caro. Ainda bem que os cálculos certos foram feitos a tempo, ainda que não a tempo de Alexandre Gaudêncio perceber que não se deve poupar no mogango para gastar nas pevides.

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