Mais um ano se passou e é já no Domingo, dia 26 de Maio de 2019, que se realiza, na cidade de Ponta Delgada, uma das maiores manifestações religiosas do Povo Português e do Povo Açoriano que é a Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Neste dia, Ponta Delgada é a capital do mundo católico e a sua população agiganta-se com crentes vindos de todas as partes da Ilha de São Miguel, das outras Ilhas do nosso Arquipélago, da nossa Diáspora, do Continente Português, e mesmo de estrangeiros que pouco ou nada tem a ver com os Açores. Mas, por este mundo fora, são também aos milhares os que não podendo estar fisicamente nas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, seguem e vivem estas Festas maiores, e principalmente a Procissão do Senhor, não perdendo a oportunidade de a ver pela televisão. Quantas lágrimas não são vertidas neste dia!

A imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres impressiona mesmo os mais insensíveis e mesmo os não católicos. A sua força reside na serenidade que transporta, não obstante, o sofrimento que lhe causamos, na confiança que transmite no seu olhar, na sua capacidade de resistência e na esperança que nos ilumina. Esta mensagem toca-nos a todos e a cada um de nós.

Embora tendo uma matriz católica, que não renego, confesso que sou um praticante com omissões e falhas, mas que procura ser fiel ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e à Senhora Santa Ana das Furnas, guardiães e aliados permanentes nos bons e nos maus momentos, e a quem recorro muitas vezes. Numa época de ganância, em que a mentira tende a permanecer sobre a verdade, de ausência de transparência, e muitos não olham a meios para prejudicar terceiros, é importante termos aliados em quem podemos confiar e não pedem nada em troca. Devo também à minha mãe falecida, no mês de Maio do ano passado, as primeiras idas ao Convento da Esperança e os primeiros contactos com o Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Mas falar das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres sem referir a nossa emigração seria uma omissão grave, pois o Ecce Homo está bem presente na decisão e no sofrimento da partida dos nossos emigrantes, acompanhando-os sempre nos percursos das suas vidas, uma realidade que ficou imortalizada pelo quadro do Domingos Rebelo do casal de micaelenses no cais de Ponta Delgada humildemente sentados e tendo à sua beira um Registo do Senhor Santo Cristo dos Milagres que interpreto como o cordão umbilical que os ligará sempre à Ilha e ao mesmo tempo a proteção que representa o Senhor Santo Cristo.

As Festas também têm o outro lado menos religioso, simbolizado pela partilha, pelo encontro, pelos passeios no Campo de São Francisco, pela observação dos milhares de lâmpadas e desenhos que dão vida à fachada principal do Convento de Nossa Senhora da Esperança, pela visita à Barraca das Rifas, pela louça da Vila, e pela música magistralmente executada pelas Bandas que atuam nos Concertos no Coreto do Campo de São Francisco, a que acrescento os carrinhos e os doces para as crianças.

Finalmente, quero recordar nesta data dois nomes grandes de Micaelenses e Açorianos que muito valorizaram o Senhor Santo Cristo dos Milagres e que infelizmente já não estão cá connosco.

O primeiro é o do meu amigo Jorge Nascimento Cabral que com a sua voz inconfundível aos microfones da RDP Açores soube magistralmente transmitir para todo o mundo, e principalmente para os nossos emigrantes, os momentos altos das Festas e da Procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, fazendo-os sentir próximo de uma realidade fisicamente tão distante. Mas o seu contributo foi também extraordinário nos diversos artigos que escreveu sobre o Senhor Santo Cristo dos Milagres, e pelas palestras que proferiu. Recordo a superior intervenção que realizou a este propósito no Ciclo de Cultura Açoriana no Canadá, incluindo a leitura de um poema de Oliveira San-Bento sobre o Senhor Santo Cristo dos Milagres.

O segundo é o meu amigo Daniel de Sá que nos legou um pequeno grande livro que é “Os Peregrinos do Senhor Santo Cristo dos Milagres”, Paulus Editora, 2009 e cuja leitura recomendo, porque através desta obra podemos descobrir o porquê da força da imagem do Senhor Santo Cristo, a origem deste culto e a importância da Madre Teresa da Anunciada.

Que falta nos fazem nos dias de hoje estes dois amigos.