Gualter Furtado: Padre José Jacinto Botelho “O Padre Pregador e Poeta das Furnas”

O Vale das Furnas é, provavelmente, um dos lugares deste Mundo que tem na sua história mais relatos e trabalhos publicados sobre o seu povoamento, a ocupação do seu solo, a evolução das suas funções e atividades económicas, as tensões entre rendeiros e senhorios, vulcões, erupções e sismos, as suas águas minero medicinais, as caldeiras e fumarolas, as suas belezas naturais, os seus parques e jardins, a presença dos jesuítas nos Açores, a sua Igreja e os seus Párocos, a gastronomia do seu povo, o Terra Nostra e muitos mais outros temas. Foram dezenas de curiosos, estudiosos, investigadores, viajantes, escritores e poetas que publicaram trabalhos sobre as Furnas, principalmente a partir do Sec XIX. A história da Ilha de São Miguel ficará incompleta se não incluir a presença do Vale das Furnas.

Mas não é o propósito deste artigo debruçarmo-nos sobre a História do Vale das Furnas, (este empreendimento deixo para outros e designadamente para os filhos da nossa terra com formação académica e cientifica na área da história que felizmente existem) mas tão somente recorrer a um dado histórico pacífico e que nos permite sustentar que na matriz fundacional do Povo das Furnas, têm um peso fundamental os casais com origem em Ponta Garça, na Maia e Lomba da Maia, o que é fácil de explicar pelas relações de vizinhança com estes povoados e pelas funções económicas que desempenhavam como carvoeiros, madeireiros, carpinteiros, pastores, coletores de mel, produção de vimes, inhames e mais tarde agricultores. Refiro esta realidade económica, demográfica e sociológica para constatar que os Padres do Vale das Furnas, da chamada era autárquica (o Vale das Furnas enquanto entidade autónoma e reconhecida como Freguesia, data de 1791) e que mais tempo exerceram funções na Igreja no Vale foram em primeiro lugar o Padre José Jacinto Botelho que assume as suas funções em 1906 como primeiro vigário da Igreja de Sant`Ana e vem a falecer nas Furnas em 1946 e o Padre Afonso Quental que vem para as Furnas em 1938 como vigário auxiliar na Igreja de Sant’Ana e também faleceu nas Furnas no exercício das suas funções em 1980, eram justamente naturais da Ponta Garça e da Maia, encontrando-se hoje ambos sepultados no cemitério do Vale das Furnas, o que não deixa de ser significativo, e os dois terem sido alvo de sentidas Homenagens dos Furnenses.

Não conheci pessoalmente o Padre José Jacinto Botelho, (1876-1946), já que ele faleceu nas Furnas em 14 de Abril de 1946 e eu nasci também no Vale das Furnas mas só em 1953, sendo a minha principal referência o Padre Afonso Quental e de quem era profundamente amigo. Mas, desde pequeno, ouvia falar em casa dos meus Avós do Padre Botelho, que embora tivesse nascido em Ponta Garça adotou como seu rebanho o Povo das Furnas e de ter sido um Padre Pregador de fama reconhecida em toda a Ilha, a tal ponto de virem às Furnas peregrinos de vários pontos da Ilha para ouvirem os seus sermões. Mas também diziam os meus Avós que, frequentemente, o Padre José Jacinto, devido aos seus dotes oratórios, era convidado para pregar em outras Paróquias da Ilha, inclusivamente em Ponta Delgada.

Mas a sua elevada capacidade manifestou-se também no campo literário com dezenas e dezenas de artigos de cariz religioso e poesia publicados principalmente nos jornais, embora os críticos e estudiosos da sua obra refiram que o Padre José Jacinto Botelho nunca teve “ambições literárias”, o que de maneira nenhuma desmerece o seu trabalho, e certamente seria uma consequência do seu modo de vida simples e ser portador de uma “sensibilidade quase franciscana”. A sua obra vale mais pelo sentimento e mensagem que transmite do que pelo dito rigor técnico e académico da sua Poesia.O Padre Botelho foi amigo de Domingos Rebelo e também de Armando Cortes Rodrigues, a quem recorreu várias vezes para publicar os seus trabalhos. Como nota paralela refiro que o primeiro artigo que escrevi na imprensa regional, precisamente no Açoriano Oriental, tinha eu 12 anos, foi para defender que a residência onde tinha vivido Armando Cortes Rodrigues em Ponta Delgada fosse aproveitada para Casa Museu, o que veio felizmente a acontecer umas dezenas de anos depois. É caso para dizer, mais vale tarde do que nunca. Esta minha iniciativa foi em parte despoletada pelo filme realizado no Vale das Furnas, e baseado justamente no romance de Armando Cortes Rodrigues: “Quando o mar galgou a terra”. Acresce que o nosso Professor, de nome Jacinto Soares de Albergaria, na Escola Comercial e Industrial de Ponta Delgada incentivava-nos a escrever artigos e publicar.

É importante que as novas gerações de açorianos e furnenses conheçam o Padre e estudem a obra do Padre José Jacinto Botelho, um grande Pregador e Poeta do Povo e das Furnas, que pode ser consultada nos estudos publicados por Eduíno de Jesus acerca da Poesia de Antonio Moreno (um dos pseudónimos do Padre Botelho) e independentemente de se concordar ou não com a análise crítica de Eduíno de Jesus, nas publicações do Instituto Cultural de Ponta Delgada, na Conferência proferida pelo Padre Manuel António Pimentel aquando dos 50 anos do seu falecimento, testemunho e recolhas feitas pelo Padre Hermenegildo Galante sobre o seu Padrinho o Padre Botelho, no Livro do Padre Octávio Medeiros sobre os Padres do Concelho da Povoação, mais recentemente pelos artigos publicados do Professor Doutor Teixeira Dias sobre o Padre Botelho no Atlântico Expresso e na Crença e através da assinalável e cuidada sistematização de informação sobre o Padre Botelho, alguma dela inédita, feita pelo Padre Ricardo Pimentel.

Assim como os Jesuítas deixaram uma marca nos primeiros colonos das Furnas, transmitindo-lhes, a organizão, o ensaio de culturas produtivas novas, o método, e a capacidade de resistência a um meio ambiente desconhecido, difícil, que metia medo (vulcões, caldeiras, fumo, tremores de terra e água por todos os lados), o Padre Jacinto Botelho, insito, um homem culto para o seu tempo, que estudou nos Açores, no Continente Português, em Roma, foi sócio fundador do Instituto Cultural de Ponta Delgada, tudo fez para que o seu Povo (rebanho) fosse mais culto e educado, e embora alguns recordem que ele sentia uma mágoa por neste capítulo não ter alcançado plenamente este Objetivo, julgo que esta sua avaliação resultava do seu elevado grau de exigência, já que a sua herança foi francamente positiva, como bem exemplifica a letra do Hino das Furnas, escrita pelo Padre Botelho:

 

Entre Montanhas Cavada

Sorri a Pátria das Flores,

Terra Nossa Muito Amada,

Ninho Dos Nossos Amores!

 

Se Algum Dia Ao Teu Enleio

Negra Sorte me Arrancar.

Permita Deus Que Ao Teu Seio

Possa Em Breve Regressar!

 

Termino, citando uma referência do Urbano Mendonça Dias publicada em 1945 na Tipografia de “A Crença”, pág 69, no seu Livro a História do Vale das Furnas:

“Vigararia – Mas é somente em 1906 que a Igreja de Sant’Ana é posta a concurso e provida nela em julho daquele ano o seu Vigário. O Padre José Jacinto Botelho, zeloso pároco, e o orador sagrado mais ouvido e expontâneo do seu tempo, mimoso poeta, cantando muito as flores, em hinos de sentimento, entoados muitas vezes à Virgem Mãe.”

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