Gualter Furtado: Esta Abstenção nas Eleições Europeias é Grave

O pedido de adesão de Portugal à CEE teve um significado político em Portugal marcante, representando uma opção clara pelos valores Democráticos e de Desenvolvimento da Europa.

Mas, se politicamente esta via foi o culminar e inicio da normalidade do funcionamento das instituições e da sociedade portuguesa, economicamente falando ela representou a substituição dos Ciclos das patacas do Brasil, ou das matérias primas de África e de que Portugal beneficiou séculos.

Os milhões de euros entrados em Portugal via Orçamento da CEE e depois da União Económica e Monetária e Programas Específicos de ajuda à produção, ao rendimento, à modulação de políticas, à reestruturação de setores e empresas, à educação e investigação e às acessibilidades, arrisco a dizer que não tem paralelo na nossa História, pelo menos no que se refere ao reduzido tempo e montante com que ocorrem estas transferências comunitárias.

Mas se isto é verdade para Portugal como um todo, assume nos Açores um valor reforçado, já que foram precisamente as transferências orçamentais da CEE que vieram colmatar e mesmo ultrapassar o fim das receitas da Bases das Lajes e em muito menor montante financeiro, o da Base das Flores, e que durante os primeiros anos da Autonomia constituíram uma fonte importante de financiamento do Orçamento da Região Autónoma dos Açores. É preciso ter a consciência que, a partir dos finais dos anos 80 do séc.

passado até aos nossos dias, 20 a 30 % do Investimento Público e Privado nos Açores teve a origem e a marca dos Fundos Comunitários, isto é da CEE. E quem suporta e paga estes Fundos Comunitários, são os Cidadãos e as Empresas a funcionar nos Países da CEE.

Ora como Portugal é um recebedor liquido positivo de fundos, é fácil de se perceber a importância de se pertencer à CEE\UEM. Nós nos Açores, mercê do estatuto de Região Ultraperiférica, e também com o estatuto de Região com baixo rendimento per capita, beneficiamos ainda da majoração nas taxas de cofinanciamento e ajudas excecionais.

Não ignoro que parte do rendimento recebido em Portugal e nos Açores com origem na Europa é reencaminhado para os Países mais desenvolvidos da CEE através das importações (carros, tratores, máquinas, bens de consumo, etc.), e que a especialização económica a que nos conduzem é fonte de dependências, mas apesar desta dura realidade a opção da CEE foi e é positiva, até porque muitos dos erros cometidos neste processo devem ser imputados a nós próprios e às más opções internas tomadas.

Em síntese, não é nada abonatório para os Açores não vermos no nosso território uma presença mais forte da União Europeia em símbolos e principalmente termos uma taxa de abstenção que nos deveria envergonhar a todos e principalmente aos Políticos.

E não colhe o argumento de que a nossa ligação afetiva e familiar prioritariamente está na América do Norte e não na Europa, já que estas duas realidades não se excluem, mas complementam-se.

Uma taxa de abstenção de mais de 80% nas eleições Europeias é um insulto aos contribuintes Europeus, incluindo os Portugueses e os Açorianos. Dá que pensar e pode ter consequências.