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A intenção já era antiga, explica à Lusa Maria do Rosário Figueiredo, representante da Associação de Pais da ilha de Santa Maria, mas a pandemia de covid-19 e a transição para o ‘online’ facilitaram a reunião de várias associações de pais de escolas de seis ilhas açorianas, tendo também a intenção de chegar às três que faltam: Flores, Corvo e Graciosa.

O recém-criado grupo reúne-se, na sexta-feira, com a secretária regional da Educação, Sofia Ribeiro, e em cima da mesa vão estar questões como a educação especial, as refeições e a ação social, mas também, numa região com a maior taxa de abandono escolar do país, questões como o insucesso escolar, os currículos, a avaliação e inovação pedagógica, o ensino profissional e os recursos humanos.

O objetivo principal é “criar uma ponte”, destaca Ricardo Pereira, de São Miguel.

“Criarmos esta ponte com secretaria, governo, escolas, para deixarmos de ser vistos como inimigos, empecilhos, mas parte da equipa, parte da mudança”, prossegue.

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Maria do Rosário Figueiredo acrescenta que “também é um objetivo criar a esperança nos pais”, que devem olhar para este grupo “como alguém que pode ter uma voz ativa para os representar”.

Até agora, o caminho pedagógico a seguir tem sido dominado pela “visão do docente – dificilmente se tem a visão do encarregado de educação, do aluno”, destaca a responsável.

“É importante ter a perceção de se o aluno tem motivação ou não. Como queremos que sejam autónomos se não têm voz? E cidadãos ativos e interessados se estão só lá para ter a nota máxima?”, questiona.

Numa altura marcada pela pandemia de covid-19, a recuperação de aprendizagens é também uma preocupação.

Todas as ilhas açorianas estiveram, a certo ponto, com as escolas encerradas e obrigadas a recorrer ao ensino à distância, mas São Miguel foi a mais afetada.

“Em São Miguel, temos uma preocupação, principalmente na zona de Rabo de Peixe, em que há miúdos que estão há quase seis meses, sete meses sem aulas [presenciais]. Isso é dramático, principalmente porque são das crianças com menos condições sociais, e vai ter de ser feito um trabalho muito grande para podermos voltar atrás e recuperar essas aprendizagens”, afirma Ricardo Pereira, reconhecendo que “houve trabalho muito bem feito à distância, mas é completamente diferente, e ninguém pode dizer o contrário”.

Para Maria do Rosário, os apoios especiais já anunciados pelo Governo Regional dedicados aos alunos dos primeiros dois anos do ensino básico e dos últimos dois anos do ensino secundário são “um foco para acalmar um incêndio agora, mas não podem ser um foco para uma estratégia de futuro”.

Rogério Sousa é professor de Português e Inglês e encarregado de educação na Terceira. Para este professor, recuperar inteiramente “não é possível”.

“Temos de ter a consciência de que, por mais esforço que seja feito, vamos ter sempre essa dificuldade, [porque] o que aconteceu foi assimétrico em todas as escolas e em todas as ilhas”, concretiza.

O terceirense lembra que o país tem “um sistema que é por ciclo e, dentro de um ciclo”, se um aluno não adquirir “competências ou conteúdos” num ano, pode sempre fazê-lo no ano seguinte.

Aconselha também que se considere “que isto não é uma tragédia”, acrescentando que, enquanto não se abandonar “esta lógica do exame de 12.º ano para entrar na universidade, este problema vai manter-se sempre”.

“Ou se encontram formas de mitigar os problemas já identificados, numa lógica de adaptação curricular à medida da realidade de cada ilha, ou teremos esta conversa ao longo dos próximos anos”, conclui.

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