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O Governo Regional dos Açores vai realizar um estudo sobre a condição física das crianças e jovens da região, avançou hoje o secretário regional da Saúde e Desporto, alegando que a “pandemia motora” já existia antes da covid-19.

“Devemos ter a perceção de que a pandemia motora não começa com a pandemia covid-19. A pandemia motora começa com um conjunto de hábitos de sedentarismo, um conjunto de hábitos de atividade de crianças, de jovens, de adultos”, afirmou o titular da pasta da Saúde nos Açores, Clélio Meneses, numa conferência de imprensa, em Angra do Heroísmo.

O estudo, realizado em colaboração com a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, terá início este mês e deverá estar concluído até ao final de 2023.

O executivo açoriano vai promover um ciclo de conferências e um congresso, entre 05 e 10 de setembro, altura em que será dada formação para a realização do estudo, que abrangerá crianças e jovens entre os 3 e os 18 anos de todas as ilhas do arquipélago.

O diagnóstico das condições físico-motoras da população infantojuvenil da região resultará de “dados obtidos através de inquérito, de provas físicas ou motoras, de análises clínicas e de exames médicos”, recolhidos “em contexto escolar”.

Segundo o secretário regional da Saúde e Desporto, o executivo açoriano definirá as políticas de promoção de atividade física com base nos resultados deste estudo.

“É essencial que haja uma alteração de paradigma no sentido de que todas as decisões tenham uma determinada estratégia, não sejam meramente a resolução de problemas de momento, intervenham de forma estrutural na sociedade”, frisou.

“Esta mudança de paradigma pretende ser impactante na vida das pessoas de forma positiva para que daqui por cinco, 10, 15, 20 anos haja pessoas nos Açores mais saudáveis, com mais atividade física, e que aqueles que escolhem seguir a atividade física na dimensão competitiva tenham melhores resultados”, acrescentou.

Clélio Meneses explicou que o executivo quer “fundamentar as decisões” que toma com base em “evidência científica”, mas alertou que os resultados não serão imediatos.

“É importante percebermos, com base científica, qual é o estado da situação nos Açores relativamente à atividade física, para conseguirmos sustentar e fundamentar decisões políticas, para as implementarmos e para que elas tenham resultado. Obviamente, estes resultados não serão sentidos nesta legislatura, nem poderiam ser”, salientou.

Apesar de ainda não ter dados concretos, o secretário regional da Saúde disse ser “evidente” que a região tem de combater o sedentarismo.

“Grande parte das doenças tem base comportamental. Os Açores estão num nível de alguma gravidade nessa dimensão, num conjunto de doenças que decorrem exatamente do sedentarismo e de outros hábitos de vida que estão ligados”, referiu.

Segundo o diretor regional do Desporto, Luís Carlos Couto, a pandemia de covid-19 veio agravar a condição física dos mais novos.

“Tivemos um aumento substancial de acidentes em contexto escolar nas escolas onde o número de degraus a subir do rés-do-chão para o primeiro andar podia ser superior a 15 ou a 20. Havia acumulação de fadiga de tal ordem que, nos últimos degraus, as crianças já não conseguiam ultrapassar o degrau, tropeçavam e caíam. Aconteceu isto muito mais vezes do que é habitual”, exemplificou.

Luís Carlos Couto disse que “há evidências de um mal-estar na perspetiva físico-motora das crianças e jovens” nos Açores.

“Quando se fala em contexto de treino e de habilidade motora, a grande maioria dos treinadores com quem falamos referem que, neste momento, numa questão de aprendizagem do gesto técnico, a grande preocupação já não é na relação da criança com a bola, é na relação da criança com o próprio corpo”, apontou.

Para o diretor regional do Desporto, os resultados do estudo podem ser importantes, não só para a definição de políticas do executivo açoriano, como até na formação das crianças e jovens.

“Imagine que detetamos que há um enorme défice ao nível da resistência aeróbia, que é aquela resistência contínua. Por que é que o currículo de educação física não há de responder a essa necessidade, em vez de estar a ensinar, por exemplo, a jogar râguebi?”, questionou.

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