Fátima Parreira: A política e os tempos

Tive oportunidade de assistir ao debate de dois açorianos que estiveram, em tempos diferentes, à frente dos nossos destinos políticos, dois homens que operaram muitas e variadas proezas. Quero deixar a minha admiração e apreço por tudo o que conseguiram, desde as lutas políticas às conquistas que alcançaram, assim como pela sensatez que usaram para conseguirem alterar os pensamentos continentais, transmitindo confiança e lealdade, não perdendo o seu objetivo, que julgo ter sido sempre a dignificação dos açorianos e a qualidade de vida destes portugueses, que se sentiam esquecidos e predestinados ao abandono.

Na minha humilde apreciação, os desafios que enfrentaram foram gigantes, atendendo ao estado dos Açores, ao atraso que se vivia em cada época, ao isolamento que a distância do governo central ocasionava.

A filosofia da autonomia surgia nos nossos responsáveis, que tiveram de enfrentar dificuldades económicas, sociais e culturais, os medos do futuro, as catástrofes que inúmeras vezes assolaram as ilhas e que iam limitando e defraudando todas as esperanças num futuro melhor.

As infraestruturas eram escassas para as necessidades e a compreensão do governo central muito reduzida e, muitas vezes, mal interpretada.

Estávamos no tempo em que a eletricidade, os esgotos, a qualidade das nossas habitações eram uma conquista, atendendo ao atraso em que nos encontrávamos. A opressão existia e a pobreza também. A emigração era a fuga de muitos e a prisão de outros. Não podemos esquecer como era difícil chegar a uma terra onde a língua era desconhecida e os hábitos e costumes uma aberração às suas origens.

Esta entrevista de Mota Amaral e Carlos César à RTP-Açores foi uma pequena amostra das ondas gigantes que os nossos políticos e responsáveis pelos nossos destinos enfrentaram e continuam a enfrentar.

Não posso esquecer os desafios dos nossos governantes atuais. Têm enfrentado uma avalanche de situações exigidas pela modernidade, que não espera o tempo suficiente para que haja consistência social e económica, nem sequer a assimilação da própria atualidade. É necessário tempo para consolidar atos e intenções. Estamos num mundo de destruição. Ainda não se implementou uma ideia e a sua estrutura e já se exige outra.

E quem governa tem de estar sempre pronto a ser confrontado, respeitando as diferenças e antevendo o futuro, porque na política todo o momento presente, no minuto seguinte já é passado.

Assistindo a este frente a frente, recordei muitos momentos da minha vida, cheios de dificuldades, de problemas inerentes à época, de inovação, do deixar o que num momento se pensava ser seguro para no momento seguinte já não o ser. Foram muitos momentos gritantes, acompanhados de pequenas guerras inerentes à nossa atividade e à sociedade que tínhamos na altura.

Mas nada acontece por acaso e não tenho dúvida de que os dias de hoje são muito exigentes. Cobram de uma maneira brutal e ao ser humano exige-se ponderação, evolução, modernidade, um espírito empreendedor, mas sólido e cheio de valores. Só nos resta seguir os bons exemplos do passado em prol de um futuro melhor.

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