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O céu ficou escuro, as casas “rasas de areia”, os terrenos impossíveis de cultivar e “caminhou meio mundo” para fora da ilha, com a erupção vulcânica dos Capelinhos, no Faial, Açores, que começou há 65 anos.

“Aquilo começou com uns abalos de terra. Daí a pedaço, fazia uns maiores e a gente via uma coisa escura aqui para cima, mas a gente não sabia o que era”, recorda António Gonçalves Pereira, 76 anos de idade, que tinha apenas 11 anos quando o Vulcão dos Capelinhos entrou em erupção.

A escuridão dos céus era o resultado das cinzas lançadas pela erupção, na sua fase inicial, mas, na altura, a informação era escassa e só através da rádio é que António descobriu que, a 27 de setembro de 1957, tinha entrado em erupção o Vulcão dos Capelinhos, na freguesia do Capelo, concelho da Horta.

“Eu e uns amigos viemos para cima, para tentar ver o vulcão de perto, mas aqui mais à frente estava a polícia e não nos deixava passar”, lembra António Pereira, recordando ainda as palavras do agente que estava de serviço no local: “Ala para trás! Não se pode passar! Isto está sempre a fazer abalos de terra, de repente vem um grande e abafa a gente todos”.

A frequência dos sismos e o volume de cinzas lançadas pelo vulcão obrigaram as autoridades locais e evacuarem as localidades mais próximas da erupção (freguesias do Capelo e Praia do Norte), mas apesar de não ter havido vítimas mortais, muitas casas e terrenos de cultivo ficaram destruídos.

“Muitas casas ficaram destruídas! Aqui para cima, foi uma desgraça! Até lá em baixo, ao pé do vulcão, houve casas que firam rasas de areia”, conta António, recordando que até o Farol dos Capelinhos, que ficava na encosta junto ao sítio onde a erupção começou, “ficou tapado” pelas cinzas.

Perante este cenário de destruição, os Estados Unidos da América abriram as suas portas à emigração, para ajudar os desalojados da ilha do Faial, por influência de alguns congressistas e senadores norte-americanos, entre eles, John F. Kennedy, que pouco tempo depois seria eleito presidente dos EUA.

“Caminhou meio mundo! Umas centenas, para não dizer, milhares de pessoas, saíram daqui para fora, e foi uma grande coisa, se não, estava gente aqui que era um caso sério e não havia trabalho para todos”, explica António Pereira, recordando que os terrenos de cultivo “não produziam nada, porque “estava tudo cheio de areia” do vulcão.

Estima-se que 30% da população da ilha do Faial (atualmente residem na ilha menos de 15 mil pessoas), terão emigrado para os Estados Unidos e para o Canadá, aproveitando o “Azorean Refugee Act”, aprovado a 2 de setembro de 1958, através do qual foram emitidos, de forma excecional, milhares de vistos de emigração para cidadãos oriundos dos Açores.

António Gonçalves Pereira, mecânico reformado, diz que nunca pensou em emigrar, mas lembra que os que ficaram também contaram com ajuda dos emigrantes para recuperarem as casas destruídas pelo vulcão.

“Famílias que estavam lá fora e as que foram daqui para lá, juntaram-se e mandaram centenas, para não dizer milhares de contos – na ocasião [a moeda] era o escudo -, para ajudar na reconstrução daqui”, refere António, adiantando que, se não fosse assim, os sobreviventes do vulcão não teriam tido capacidade para recuperarem os seus bens.

As recordações são de quem viu de perto, há 65 anos, o nascimento do Vulcão dos Capelinhos, cuja erupção começou a 27 de setembro de 1957 e terminou mais de um ano depois, a 24 de outubro de 1958.

Atualmente, o que resta da erupção, desgastada pelo vento e pelas ondas do mar, constitui uma das principais atrações turísticas da ilha, potenciada por um centro de interpretação subterrâneo, entretanto construído no local, que reúne toda a informação sobre a origem e as consequências do Vulcão dos Capelinhos.

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