Empresários, sindicato e lavoura apelam à retoma do consumo nos Açores

Rodrigo Rodrigues

Os dirigentes da câmara de comércio, da federação agrícola e da UGT dos Açores apelaram esta quinta-feira à confiança dos consumidores na reabertura de serviços, alertando para os impactos económicos do prolongamento do confinamento devido à Covid-19.

“É impossível a economia retomar se continuarmos com este clima de pânico e de medo que foi instalado na sociedade em geral e confinados à nossa casa e à nossa família. Não é essa a sociedade que nós criámos e que pretendemos para o futuro. Há que dar um passo em frente”, afirmou aos jornalistas o presidente da Câmara de Comércio e Indústria dos Açores, Rodrigo Rodrigues.

Acompanhado pelo dirigente da UGT/Açores, Francisco Pimentel, e pelo vice-presidente da Federação Agrícola dos Açores, José António Azevedo, Rodrigo Rodrigues almoçou hoje num pequeno restaurante em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, para “desmistificar algum receio e alguma falta de confiança” que ainda existe sobre a retoma da restauração.

“Todos os restaurantes que estão abertos implementaram as medidas que foram recomendadas e os clientes estão a fazer o mesmo, portanto, hoje em dia temos de admitir que é perfeitamente seguro vir à restauração, virmos jantar fora com a família e com as pessoas mais chegadas, são essas as recomendações”, afiançou.

A reabertura do comércio e da restauração está a ser feita de forma faseada nos Açores, tendo começado pelas ilhas sem registo de qualquer caso de Covid-19 (Santa Maria, Flores e Corvo), no dia 6 de maio.

Nesse dia abriu também o comércio nas ilhas Terceira, Pico, Faial e São Jorge, que só retomaram as atividades de restauração no dia 13.

Na ilha Graciosa, o comércio já está de portas abertas desde o dia 17, mas os restaurantes só reabrem no dia 25 e, na ilha de São Miguel, as reaberturas estão previstas para dias 22 (comércio) e 29 (restauração).

Segundo Rodrigo Rodrigues, o arranque está a ser “um pouco lento”, mas a sociedade tem de ultrapassar o medo, até porque em seis das nove ilhas do arquipélago não há atualmente casos positivos ativos.

“Agora é preciso desconfinar, é preciso que a economia funcione, que a sociedade acredite e que o turismo também dê o seu contributo que já dava para a nossa economia, que representava cerca de 12% do nosso produto interno”, sublinhou, defendendo uma aposta inicial no turismo interno.

O representante dos empresários admitiu que alguns negócios “não sobreviveram” às quebras provocadas pela pandemia da covid-19 e que os restantes estão “anestesiados” pelas medidas de apoio dos executivos nacional e regional, alegando que a economia não se pode “manter confinada durante vários meses”.

“Foram dois meses com faturação zero e, neste momento, já percebemos que o mês de maio vai ser um mês de retoma um pouco lenta. Pretendemos é atenuar essa questão, trazer a nossa sociedade novamente à sua vida normal”, apontou.

O dirigente da UGT, Francisco Pimentel, teme que o adiamento da retoma possa provocar uma “crise económica e social com contornos insustentáveis”.

“Aqui nos Açores faz particular sentido aderirmos a esta onda no sentido da confiança, passarmos do discurso do medo para o discurso da coragem política, com cautela, com segurança, mas apelando a que as pessoas retomem a normalidade e a confiança na sua economia, nos seus trabalhadores, na atividade produtiva. Não o fazendo, estamos a criar uma nova pandemia com consequências tremendas”, frisou.

Admitindo que há um “receio natural” no regresso ao trabalho, o sindicalista defendeu a “urgência” da retoma da economia, alegando que há estudos de economistas que apontam para a perda de “2.000 postos de trabalho” nos Açores, a cada mês que passa sem desconfinamento.

“Cada dia que passa, cada mês que passa, corremos o risco de termos o desemprego e a pobreza à nossa porta”, alertou.

A agricultura foi um dos setores que manteve atividade durante a pandemia, mas os produtores também foram afetados, sobretudo devido à redução das vendas para o mercado nacional, já que apenas 14% da carne e 12% dos laticínios produzidos são consumidos internamente.

“Nós continuamos a produzir, mas em termos de consumo há uma retração. Há perda de rendimentos, principalmente na carne houve uma grande quebra no preço pago ao produtor”, salientou José António Azevedo, vice-presidente da Federação Agrícola dos Açores.

O representante dos agricultores apelou também à retoma da economia, sublinhando que esta crise é “transversal a todos os setores” e que “todos os setores têm de estar unidos”.

“A máquina tem de começar a voltar a andar e tem de se dar um grande impulso à economia, para que possamos pôr a economia a circular e voltar à normalidade, para que todas as empresas tenham o volume de negócios que tinham antes da pandemia”, reforçou.