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Os empresários da ilha das Flores, nos Açores, denunciaram hoje o “caos” no abastecimento e a rutura de ‘stocks’ em vários produtos, incluindo gás, alertando para uma economia estagnada devido aos constrangimentos no porto.

“O abastecimento está péssimo. Falta muitíssima coisa. Mais de 50% das referências. Falta de tudo, praticamente. Ainda temos leite para mais um dia ou dois, tal como farinha. Mas açúcar, por exemplo, já não temos. Isto está o caos”, disse à agência Lusa Arlindo Lourenço.

O empresário, responsável por quatro supermercados e um ‘cash-carry’, lembra que o último abastecimento regular aconteceu a 04 de fevereiro, avançando que tem mercadoria encomendada desde de janeiro que ainda não chegou às Flores.

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“Isto está a pôr em risco a sobrevivência das empresas e da economia local. Não é possível. Está a ser muito difícil. Estamos a ter perdas astronómicas nas vendas. Os custos mantêm-se iguais e a faturação de arrasto. O governo não nos apoiou em absolutamente nada”, critica.

Em 2019, o furacão ‘Lorenzo’ destruiu o molhe do único porto comercial das Flores, que voltou a ser afetado, em dezembro de 2022, devido à passagem da tempestade ‘Efrain’.

A Força Aérea Portuguesa fez hoje o segundo voo extraordinário desta semana para abastecer a ilha com 5.000 quilos de rações para aves e suínos, após um primeiro abastecimento na terça-feira de bens de primeira necessidade, revelou o Governo Regional (PSD/CDS-PP/PPM).

Arlindo Lourenço reivindica a criação de um “apoio de exceção” para os empresários florentinos, lembrando que a construção do porto das Lajes é uma “obra para muitos e muitos anos”.

“Há empresários que já admitem cessar a atividade e irem embora. A nossa empresa será uma dessas, se isso continuar. Está péssimo. Quando chegar o verão vai melhorar um bocadinho e depois no próximo inverno vai ser um caos outra vez”, afirmou.

Com 40 anos de experiência, Arlindo Lourenço, cuja empresa emprega 30 pessoas, diz que “nunca passou por uma situação destas”.

O empresário destaca que procurou encomendar gás, mas que o fornecedor lhe informou que estava à espera da atracagem do navio Thor B (que habitualmente abastece a ilha do Corvo) que está a aguardar por uma melhoria do tempo para levar bens para a ilha.

Arménio Carneiro, empresário no ramo dos supermercados e combustível, avança que não tem gás para venda, avisando que as 100 botijas transportadas do Corvo em semirrígido (numa operação de emergência anunciada pelo executivo regional na segunda-feira) serviram para “pouquíssima coisa”.

“Não há gás nenhum. Zero. Mandaram 100 garrafas do Corvo, que serviu apenas para tapar o sol com a peneira. Cem garrafas não dão para nada. Por exemplo, tenho três contentores de gás pedidos há semanas. São quase mil garrafas”, comparou.

Sobre o avião militar, que chegou na terça-feira à ilha com bens de primeira necessidade, o comerciante diz que as quantidades são “insignificantes” face às necessidades.

“Falta de tudo. Está muito mau. Quem tem comércio não vive só dos bens essenciais. Falta o gás. Tenho carga comprada em Lisboa a meados de janeiro que já está paga e ainda não chegou. Zero”, descreve, dizendo que ainda não fechou o estabelecimento por “respeito” aos oito funcionários.

Jorge Costa, responsável por duas lojas de venda ao público e um armazém de distribuição por grosso, tem mercadoria “carregada em Lisboa a 24 de janeiro em contentores” que ainda não chegou à ilha.

O empresário ainda tem um ‘stock’ “muito reduzido” de bens essenciais, como farinha ou leite, mas existem “inúmeros” produtos em falta.

“Temos 18 funcionários. Manter a estrutura a trabalhar sem ter uma boa parte dos produtos é muito difícil. Não temos mais de 25% das referências que trabalhamos normalmente. Até agora, os apoios dados às empresas pelo Governo Regional foram zero”, condena, avisando que é “muito difícil” um negócio “sobreviver apenas com os produtos básicos” que têm “margens controladas”.

Jorge Costa aponta ainda um “problema grave com as mercadorias com a validade de 20 dias”, como o pão de forma.

“A economia da ilha das Flores está completamente estagnada. Os empresários da construção civil mandaram os funcionários para casa de férias. Não há cimento, nem ferro. Por consequência, não se entregam obras, nem há dinheiro a circular”.

Sobre o navio “Margareth” (que o Governo Regional fretou para abastecer a ilha a partir deste mês), Jorge Costa reconhece que vai “ajudar a resolver uma parte do problema”, mas alerta que as Flores “podem estar 20 dias com mau tempo” e as empresas “já estão muito descapitalizadas”.

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