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O presidente da Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo (CCAH) disse hoje que a opção de ligar o cabo submarino do continente português à ilha Terceira foi “estritamente técnica”, acusando o deputado do Chega/Açores de “bairrismo”.

“Sobre esta opção, estritamente técnica, é importante referir que ela permitirá que os Açores não fiquem sujeitos ao que tecnicamente se designa de ‘single point of failure’ [local num sistema informático que, caso falhe, provoca a falha de todo o sistema.]. Este facto é de grande importância, já que vivemos numa região dada a catástrofes naturais”, afirmou o líder da associação empresarial, Marcos Couto, em comunicado de imprensa.

O empresário referia-se ao facto de o cabo submarino CAM (continente-Açores-Madeira) entrar primeiro na ilha Terceira, seguindo depois para a ilha de São Miguel, onde ligará ao cabo já existente para o arquipélago da Madeira.

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Na sexta-feira, o deputado único do Chega nos Açores pediu esclarecimentos ao Governo Regional (PSD/CDS-PP/PPM), em requerimento, sobre as razões que levaram o executivo “a desviar para a ilha Terceira a principal ligação do cabo submarino nos Açores”.

José Pacheco perguntou se São Miguel “perderá a ligação submarina direta a Lisboa” e se, nesse caso, “poderá perder competitividade”, lembrando que a ilha “concentra mais de metade da população (56%) e é o motor económico dos Açores com 58% do PIB [Produto Interno Bruto]”.

Em comunicado de imprensa, o presidente da CCAH, que representa empresários das ilhas Terceira, Graciosa e São Jorge, manifestou “enorme perplexidade” com a posição do deputado do Chega, que acusou de revelar “falta de conhecimento técnico sobre a situação” e “alta permissividade aos ‘lobbies’ centralistas e bairristas da região”.

“Para o deputado do Chega, existem açorianos de primeira e de segunda categoria, sendo que os de primeira são os que residem na sua ilha. Uma atitude absolutamente lamentável em alguém que desempenha as funções de deputado regional. Assume claramente a posição que o que não serve para São Miguel, serve para as outras, tratando-as com desdenho e total desprezo”, afirmou.

Segundo Marcos Couto, a solução encontrada dá mais segurança à ligação de cabos submarinos à região, já que, com a atual ligação, em caso de catástrofe natural na ilha de São Miguel, “os Açores ficariam totalmente desligados do mundo”.

O presidente da CCAH acrescentou que essa situação “impediu a ilha Terceira “de captar investimentos ao nível, por exemplo, do ‘data centre’”.

“Na ilha Terceira existe uma base militar norte americana, o AIR Centre e o Atlantic Centre, três elementos essenciais para a segurança regional, nacional e internacional. Estas três entidades utilizam uma grande quantidade da capacidade dos atuais cabos submarinos, para quem a eliminação da enorme fragilidade do ‘single point of failure’ é crucial para o seu funcionamento”, frisou.

O empresário rejeitou ainda que o período de latência das comunicações prejudique a ilha de São Miguel.

“Poderia ser, eventualmente relevante, para as possíveis cirurgias feitas remotamente. Muito embora não tenhamos tido hipótese de verificar da sua verdadeira importância, não queremos acreditar que esse seja um problema para São Miguel e não o seja para a Terceira ou para as restantes ilhas dos Açores”, apontou.

“Na realidade, a proximidade da Terceira às outras seis ilhas do Açores [Flores, Corvo, Pico, Faial, São Jorge e Graciosa] irá diminuir a hipotética latência e potenciar intervenções cirúrgicas nas outras ilhas partindo da Terceira e assim salvar muitas vidas em ilhas em que a presença física de um médico nem sempre é uma realidade ou uma possibilidade”, acrescentou.

Quanto ao argumento de que São Miguel concentra mais de metade do PIB da região, Marcos Couto defendeu que deve ser utilizado para se “começar a investir fortemente nas outras ilhas” e não como “critério de mais centralismo e bairrismo bacoco e serôdio”.

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