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Dois administradores de cooperativas de laticínios nos Açores manifestaram hoje opiniões diferentes sobre a necessidade de atribuição, por parte do Governo Regional, de cartas de conforto para facilitar a contração de empréstimos bancários.

“Eu não tinha conhecimento dessa carta conforto”, garantiu António Aguiar, presidente do Conselho de Administração da Uniqueijo, a união de cooperativas da ilha de São Jorge, em declarações aos deputados, em Ponta Delgada, numa audição da comissão de inquérito à concessão de avales concedidas pelos anteriores governos socialistas.

O administrador referia-se a uma garantia dada pelo anterior executivo do PS, em 2018, para que a Uniqueijo pudesse contrair um empréstimo, junto da banca, no valor total de 10,5 milhões de euros, com vista à reestruturação da empresa.

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Segundo explicou, a Uniqueijo já tinha dado como garantia do empréstimo, junto da instituição de crédito, o edifício da empresa, o ‘stock’ de queijo armazenado nas cooperativas e até mesmo um “aval pessoal” dos membros da administração, razão pela qual, entende que “não se justificava” que o Governo prestasse ainda mais uma garantia bancária.

“No meu caso, sempre tive conhecimento das cartas conforto, nas várias reuniões que tive com o banco, ao longo deste período”, admitiu, por outro lado, Jorge Pereira, presidente do Conselho de Administração da LactoPico, a cooperativa de laticínios da ilha do Pico, também ouvido hoje pela comissão de inquérito aos avales.

O administrador referia-se a duas cartas conforto, concedidas pelo Governo, a primeira das quais em 2013, para a contração de dois empréstimos, no valor de 2,5 e de 1,5 milhões de euros, para investimentos na fábrica de laticínios do Pico e para a reestruturação financeira da cooperativa.

“Ainda recentemente estive reunido com a instituição de crédito e com o secretário da tutela e voltámos a falar na possibilidade de uma nova carta conforto, para podermos renegociar os empréstimos em vigor”, adiantou Jorge Pereira.

Numa coisa, os dois administradores estão de acordo: o setor cooperativo nos Açores só se consegue manter à custa dos subsídios e dos apoios governamentais.

“Percebemos e sentimos o incómodo, de muitas vezes, a LactoPico ser falada negativamente pelo volume de apoios que recebe. Não é nenhum orgulho para nós! Mas, infelizmente, dependemos do Governo Regional para continuar com a porta aberta”, admitiu Jorge Pereira.

António Aguiar apelou ao Governo e aos deputados para que encontrem soluções para estancar a perda populacional em São Jorge, e a consequente perda de produtos de laticínios, que poderá mesmo levar ao encerramento de algumas cooperativas.

“São Jorge vai perder, este ano, quase quatro milhões de litros de leite e isso pode colocar em causa a viabilidade das cooperativas”, alertou o presidente da Uniqueijo, recordando que as três cooperativas da ilha (Lourais, Beira e Finisterra), têm 211 agricultores, que produzem 25 milhões de litros de leite por ano.

Os deputados da comissão de inquérito à concessão de avales manifestaram-se preocupados em apurar se as cartas conforto e os avales atribuídos pelos anteriores executivos socialistas, beneficiaram algumas empresas privadas, em detrimento de outras, e por que razão foram “omitidas” das contas da região.

“Segundo o Tribunal de Contas, estas cartas conforto foram sucessivamente omitidas da conta da Região, apesar do Governo ter justificado essa omissão com um lapso”, recordou Joaquim Machado, deputado do PSD, que entende que este processo é, no mínimo, “pouco transparente”.

Berto Messias, deputado do PS, insiste que “os apoios que foram concedidos às empresas regionais, no âmbito dos sistemas de incentivos em vigor e no âmbito dos programas de apoio à manutenção de postos de trabalho, foram totalmente transparentes e dentro das regras definidas pela Lei”.

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