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Dois empresários açorianos que receberam avales atribuídos pelo Governo para a contração de empréstimos bancários em 2014, disseram hoje “desconhecer”, ou “não se lembrar” de terem tido aquela garantia.

“Sinceramente, não sabia por que razão tinha sido chamado a esta comissão de inquérito”, questionou Carlos Cymbron, gerente da empresa José Cymbron, Lda, ouvido na Comissão de inquérito à concessão de avales a empresas privadas, reunida em Ponta Delgada, alegando não se recordar de que o empréstimo contraído naquela altura, no âmbito do programa de “estabilização de emprego”, no valor de 40 mil euros, vinha acompanhado de um aval do executivo açoriano.

O empresário, ouvido pelos deputados à Assembleia Legislativa dos Açores, garante que o empréstimo já foi liquidado e asseverou que “nunca” constatou com “ninguém” da empresa pública “Ilhas de Valor”, através da qual foi concedido o aval, nem com “ninguém do Governo”, embora tenha admitido que esta garantia bancária permitiu à sua empresa beneficiar de juros mais baixos.

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Também o empresário José Luís Nunes, gerente da Sociedade Açoriana de Ótica e Ourivesaria, Lda, alegou, durante a audição parlamentar, “desconhecer” que o empréstimo que contraiu em 2014, no valor de 12 mil euros, tivesse qualquer apoio do Governo, através de um aval.

“Nunca ouvi falar de nenhum aval”, garantiu o empresário, em declarações aos deputados, alegando que o contrato que assinou com a banca foi tratado diretamente com a contabilidade, mas nunca a seu pedido.

Os dois avales em causa, atribuídos pelo Governo Regional, liderado na altura pelo PS, são exemplos de garantias “pouco transparentes”, no entendimento dos partidos de direita (PSD, CDS-PP e PPM) que estão agora na liderança do executivo açoriano e que suscitaram a criação desta comissão de inquérito.

Joaquim Machado, deputado social-democrata, lembrou que a “Ilhas de Valor”, através da qual o Governo atribuiu os avales, “omitiu” essa informação das suas contas, situação que o Tribunal de Contas só recentemente descobriu.

“Não lhe causa estranheza que estes avales tenham sido omitidos das contas da Ilhas de Valor”, questionou o deputado do PSD, dirigindo-se a José Luís Nunes, que respondeu que não via “nenhuma razão” para isso: “se estivéssemos a falar de um empréstimo de 12 milhões, mas eram apenas 12 mil euros”, ironizou.

Joaquim Machado questionou também Carlos Cymbron sobre o “esquecimento seletivo” em relação a alguns pormenores dos contratos que assinou com o Governo, na altura em que beneficiou de um aval atribuído pela região.

O empresário não gostou e deixou uma advertência: “pedia ao senhor deputado Joaquim Machado que, da próxima vez que quiser deixar registado que eu tenho falhas de memória, que o fizesse com um maior esclarecimento, porque não achei bonito e não estou aqui na qualidade de arguido”.

A presidente da Comissão de Inquérito, a social-democrata Sabrina Furtado, ainda exigiu que o deputado do seu partido pedisse desculpa ao convidado, mas acabou ela mesmo por o fazer: “Quem pede desculpa por alguma eventualidade sou eu, como presidente desta comissão, de alguma coisa que possa, eventualmente, sentir-se ofendido”.

A comissão de inquérito à concessão e avales a empresas privadas está a investigar a eventual atribuição ilegal de avales ou garantias bancárias, concedidas pelos anteriores governos socialistas, a entidades privadas da região, que possam ter gerado benefícios a algumas empresas ou que possam ter sido consideradas pouco transparentes.

Andreia Cardoso, deputada da bancada socialista, recordou que a concessão de avales a empresas privadas, através da “Ilha de Valor”, tem o “devido enquadramento” na legislação regional, concluindo não existir qualquer ilegalidade neste processo.

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