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No Mercado Municipal de Ponta Delgada, a afluência anda longe do habitual, com comerciantes a criticarem “a novela” em torno das obras de requalificação e os clientes apenas de passagem rápida.

“Isto só tem mais pessoas à sexta e sábado. De semana parece uma passarela de modelos”, aponta Mário Sousa, à agência Lusa, vendedor de frutas e legumes no Mercado da Graça, na ilha de São Miguel, nos Açores, há 15 anos.

Desde outubro de 2020 que os produtores de hortícolas, frutícolas e lojas de artesanato têm os seus pontos de venda no parque de estacionamento, situado no piso – 1, enquanto os comerciantes de peixe, carne e lojas comerciais continuam a trabalhar no piso 0 do mercado.

Em 30 de julho, a Câmara Municipal de Ponta Delgada anunciou que suspendeu a obra de requalificação da cobertura do Mercado da Graça “por motivos de segurança”, devido à inexistência de projeto contra incêndios.

O empresário, o “Rei dos Ananáses”, assinala à Lusa ter quebras no negócio de “mais de 70%”, devido às obras no mercado.

“São caixas de 100 euros de fruta que se perdem. Os legumes ainda controlo até ao fim de semana, mas a fruta mais sensível, como pêssegos, nectarinas e ananás, se não tivermos olho aberto perde-se tudo”, refere Mário Sousa, lembrando que tem “impostos para pagar, segurança social e o seguro” do seu funcionário.

Ao “contrário” das obras no Mercado da Graça, que “não andam, todos os meses a vida continua”, atira o empresário.

“Estávamos todos confiantes que a mudança seria para setembro. E, agora, pregam-nos com isso na cara, com a suspensão das obras”, critica.

Outro comerciante, Edgar Frias, classifica as obras de “novela” e assegura que o seu negócio também “está bastante afetado”.

“O funcionamento no parque de estacionamento tem afetado bastante o negócio. Não há condições. Falta estacionamento. É muito abafado. Tenho perdido fruta e clientes. A fruta apodrece toda e o nosso clima é muito húmido”, afirma à o vendedor, no espaço há 17 anos.

André Oliveira já está instalado no mercado há 11 anos e considera que “a partir do momento em que se mudaram para baixo”, para o parque de estacionamento, “o negócio piorou”.

“Isto é uma novela. Portugal é isto”, sustenta.

De passo apressado, a sair do interior do parque de estacionamento onde funciona provisoriamente o Mercado da Graça, Ilídio Lopes confessa que agora só vai ao espaço de corrida.

“Está complicado. Não há condições para fazer compras no mercado. Vou para um lado, vou para o outro. É vir comprar e sair”, descreve o comprador.

Também João Ben-David, cliente assíduo do Mercado Municipal de Ponta Delgada, entende que “não existem condições nos atuais moldes de funcionamento“.

“É uma pouca vergonha para vendedores e para os clientes. Todas as pessoas se queixam da entrada e da saída. Não há placas de sinalização. Com tantos arquitetos, não se compreende como se parou uma obra”, afirma.

E questiona: “Qual é o ano em que a obra estará pronta?”.

Filomena Medeiros, frequentadora do mercado, critica a forma “como está a ser gerida a remodelação do espaço”.

“Isto aqui fica tão abafado. Compramos o melhor, agora os vendedores é que perdem”, refere à Lusa.

Na zona da peixaria, que continua a funcionar no piso 0 do mercado, o vendedor de peixe António Ramos diz que as obras ”têm prejudicado o negócio”.

”Os clientes queixam-se dos preços do peixe e agora das obras. Isto tem prejudicado o negócio e bastante. E, agora pior, porque as obras pararam”, sublinha.

Em 04 de agosto, a Câmara de Ponta Delgada revelou que já tinham sido iniciados os procedimentos para a elaboração do projeto contra incêndios da requalificação do Mercado Municipal, notando que só nessa altura a sua inexistência justificou a suspensão da obra.

Em comunicado, o município liderado pelo social-democrata Pedro Nascimento Cabral referia que a Câmara “foi notificada em 28 de janeiro” pelo Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores (SRPCBA) do parecer desfavorável sobre o “presumido projeto de segurança contra incêndios da obra do Mercado da Graça”.

“Desde logo, foram iniciados por este executivo todos os procedimentos inerentes à elaboração do correto projeto de segurança contra incêndios e necessário aditamento ao projeto de arquitetura do Mercado da Graça”, lia-se no comunicado.

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