ENTREVISTA: Carlos César elogia solução de Governo à esquerda mas coloca reservas à entrada do BE e PCP

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O presidente do PS, Carlos César, elogiou hoje a “experiência bem sucedida” de governo com o apoio da esquerda parlamentar mas colocou reservas quanto à hipótese de BE e PCP integrarem um futuro executivo.

“Nas circunstâncias atuais, dificilmente veria Catarina Martins como ministra dos Negócios Estrangeiros ou Jerónimo de Sousa como ministro da Defesa Nacional”, comentou o também líder parlamentar do PS em entrevista à rádio Antena1, da RTP.

Confrontado com a ambição já manifestada pela coordenadora do BE de levar o partido para o Governo, Carlos César considerou que isso só poderia acontecer se os bloquistas alterassem os seus posicionamentos, numa alusão a matérias relacionadas com a União Europeia ou com a Defesa nacional.

“Penso que o cenário mais fácil é o da repetição desta experiência, naturalmente com outros acordos, visto que estes foram esgotados neste exercício”, defendeu, considerando, porém, que “o PCP e o BE têm de ir além de uma perspetiva sindical com que abordam muitos dos temas” e manifestando expectativa quanto à explicitação das propostas dos comunistas e bloquistas na campanha eleitoral para as legislativas.

César considerou que os méritos da atual solução governativa “devem ser repartidos” pelo PS, PCP, BE e PEV e, quando questionado sobre a conclusão de Catarina Martins de que António Costa e Passos Coelho são iguais a lidar com os problemas do sistema financeiro, enquadrou essa afirmação na campanha eleitoral e na necessidade de agradar às “diversas composições internas” dos bloquistas.

O BE é “um partido com uma composição muito plural, até contraditória” e há muitas vezes a necessidade de “acalmar algumas dessas composições internas”, argumentou.

Quanto às próximas eleições presidenciais, Carlos César não fechou a porta a um apoio socialista a uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa mas insistiu: “a eleição presidencial não é uma eleição partidária” e, por isso, os partidos apoiam os candidatos, não os lançam.

Sobre a regionalização, o líder parlamentar socialista admitiu como “muito provável que ainda não esteja em causa no próximo quadriénio”.

Questionado pela jornalista Natália Carvalho, da Antena1, se vai ocupar o cargo de presidente da Assembleia da República na próxima legislatura, caso o PS ganhe as eleições, César começou por responder que nem sequer tencionava participar no atual ciclo da vida partidária, mas foi convidado pelo primeiro-ministro e aceitou ocupar cargos partidários.

“O PS deve prosseguir o caminho que está a fazer de renovação”, defendeu, afirmando que “quando chegar o seu tempo”, dará conta das conversas mantidas com António Costa sobre o seu futuro político.

Transcrição da entrevista de Carlos César à Antena 1 esta segunda feira abaixo

Editora de Política da Antena 1, Natália Carvalho conduziu a entrevista nos estúdios da Antena 1 em Ponta Delgada

Na ronda pelos líderes partidários hoje seria a vez do primeiro-ministro e líder do PS, António Costa. Não respondeu ao convite da Antena 1, o que me leva a ter aqui no microfone à minha frente a outra face do PS, o presidente do Partido Socialista, Carlos César. Uma entrevista que também pode seguir no Facebook live da Antena 1.

António Costa assumiu recentemente que se sente, em 90% das vezes, porta-voz do pensamento de Carlos César e Carlos César é, em regra, diz ele, a interpretação qualificada do seu próprio pensamento. Podemos inferir que é a personalidade que mais influência tem junto do primeiro-ministro?
Eu não creio que seja necessário averiguar em profundidade isso. Agora, o que lhe posso dizer, evidentemente, é que, em função das minhas funções de presidente do Partido Socialista e de presidente do Grupo Parlamentar, embora não tenha que pensar como o primeiro-ministro e o secretário-geral do PS, sou uma face da mesma moeda e, como as faces das moedas são diferentes, tenho, evidentemente, as minhas diferenças na avaliação das coisas que estão em causa, mas somos parte do mesmo projeto, o que nos permite um trabalho conjunto que tem sido, aliás, como se sabe, bem sucedido, especialmente no plano governativo.

António Costa faz de polícia bom e o senhor de polícia mau?
Em função das circunstâncias, a natureza das minhas funções como presidente do Grupo Parlamentar comporta uma implicação maior no debate político quotidiano e, também, por definição, na polémica. O Parlamento é isso mesmo. Desde que essa polémica seja desenvolvida com proveito para o esclarecimento dos cidadãos, e para a diferenciação dos projetos que estão em presença, não deve ser evitada. Eu faço o possível para que aquilo que o Partido Socialista diz no Parlamento seja perceptível, mesmo que a imagem e a retórica que se deva associar a essa perceção seja mais viva.

E já assumiu que as suas relações com António Costa são à prova de bala.
Contra muitas expectativas, a chamada Geringonça garantiu a legislatura. Quem é que contribuiu mais ou que partido contribuiu mais para essa estabilidade nesta fórmula de apoio ao Governo?
Eu creio que esta experiência política portuguesa teve, até agora, um grande sucesso. É uma confluência governativa sem precedentes. Permitiu, também, o desenvolvimento, ao longo de uma legislatura e em estabilidade, de um projeto governativo, assente por um lado nos acordos celebrados com os diferentes partidos políticos, por outro lado no programa do Governo. Permitiu, de resto, a execução do Programa Nacional de Reformas, do Programa de Estabilidade, a aprovação de uma larga maioria de propostas apresentadas pelo Partido Socialista e pelo Governo no Parlamento, e permitiu, em simultâneo, sem prejuízo dessa estabilidade, outros avanços, em outras áreas, com diversificação de interlocutores, também à direita, na área económica, áreas financeiras, na área da defesa nacional, nas questões de avaliação europeia ou mesmo internacional.
Portanto, o Partido Socialista assumiu no conjunto desta legislatura o papel que nenhum outro partido político em Portugal tem conseguido fazer de forma plena, ou seja, a capacidade de moderação e a capacidade moderadora, independentemente do seu posicionamento preferencial com os aliados do PCP, do PEV e do Bloco para o projeto governativo. Independentemente disso, o PS evidenciou uma grande capacidade de interlocução e de diálogo que permitiu que a generalidade daquilo que era essencial fazer aprovar nesta legislatura fosse efetivamente aprovado.
Se me perguntar se em determinada fase um determinado partido teve maior influência do que outro, isso pode ser verdadeiro em função das circunstâncias.

Ora o Bloco ora o PC, o Partido Socialista foi jogando com os dois nesta…
E não só. Esta legislatura não se resume apenas ao problema ou à questão das influências partidárias. Foi uma legislatura muito peculiar noutro sentido, que permitiu que, com diferentes intensidades no tempo, os poderes parlamentar, presidencial e executivo fossem tendo a sua prevalência. Isso, sem prejuízo da estabilidade e sem prejuízo de uma harmonia que não comportou qualquer atropelo.

O Presidente da República também contribuiu para ser uma espécie de seguro de vida deste Governo?
Eu penso que o Presidente da República cumpriu o seu papel. Um papel moderador que se manifestou em diversas circunstâncias. Algumas circunstâncias eram de maior dificuldade para o Governo, outras de maior dificuldade para a oposição, outras de maior dificuldade para a generalidade dos portugueses. Teve, também, um papel de estímulo e de chamada de atenção, como compete ao Presidente da República fazer, e foi um Presidente que manteve uma grande proximidade, uma grande proximidade com as pessoas, o que reforça, sem dúvida, a confiança na democracia e nas instituições. Sendo um Presidente popular evitou sempre ser um Presidente populista na retórica e na conduta que está associada a esse comportamento.

Ele vai poder contar com o apoio do Partido Socialista para a reeleição no segundo mandato?
Ele conta com o apoio do Partido Socialista para o exercício da sua magistratura no decurso deste seu mandato. Quando chegarmos às eleições presidenciais faremos uma reavaliação do seu mandato, das condições políticas que estarão em presença e decidiremos da melhor forma que, a nosso ver, interprete o interesse nacional. Nós sabemos que o Presidente da República, de acordo com as suas declarações, prefere a sua recandidatura, declarações essas que têm sido suficientemente explícitas e em que apenas tem condicionado essa recandidatura a uma alteração, que todos nós não desejamos, das suas condições de saúde ou da ambiência política nacional e internacional. A previsão nesse domínio é conhecida. Portanto, nós teremos, certamente, Marcelo Rebelo de Sousa nas próximas eleições presidenciais e, em função disso, o Partido Socialista fará a avaliação que sempre tem feito em circunstâncias semelhantes.

Mas face ao seu discurso e ao de outros dirigentes do Partido Socialista, também já se pode quase depreender que será fácil para o PS apoiar este Presidente.
É legítimo que qualquer dirigente do Partido Socialista o faça. O que não é legítimo é que o presidente do Partido Socialista que, não sendo o número um do PS nem o número dois do PS, visto que por definição estatutária é um supranumerário, tenha qualquer antecipação sobre a conduta que o Partido Socialista então tomará.
O que é certo é que nós temos tido sempre o entendimento que a eleição presidencial não é uma eleição partidária e, em função dos candidatos que estiverem em presença nessa ocasião, nós decidiremos, como disse, interpretando o interesse nacional.

Regressando a esta fórmula do Governo, o discurso irrequieto de Catarina Martins parece incomodar mais do que a conta o Partido Socialista. Bastas vezes o senhor veio a terreiro recentrar o discurso da coordenadora do Bloco. O Bloco de Esquerda é o irritante desta coligação?
Não creio que assim seja. O Bloco de Esquerda é um partido com uma composição muito plural, até contraditória no seu interior. Nós sabemos que existem grandes tensões dentro do Bloco de Esquerda sobre a sua avaliação deste acordo com o Partido Socialista e, portanto, interpretamos muitas vezes – eu, pessoalmente, interpreto muitas vezes – declarações da líder do Bloco de Esquerda como tendencialmente no sentido de acalmar algumas tensões internas.

E quando ela veio nestes dias recentes comparar António Costa a Passos Coelho na gestão do sistema bancário, dizendo que o atual primeiro-ministro não fez nada diferente, pelo contrário, seguiu os passos de Passos Coelho – passo a expressão –, isso irritou o Partido Socialista, mas ela insiste, ainda assim. Ou seja, é uma convicção…
Sim, mas eu creio… Nós estamos em vésperas de uma eleição legislativa para a Assembleia da República e é natural que, quer o Bloco de Esquerda, quer o Partido Comunista, quer mesmo o PEV, que estiveram associados a este projeto de Governo e ao apoio ao Partido Socialista no Governo, acentuem as suas diferenças em relação a diversos domínios. Pela nossa parte, nós até gostamos que assim aconteça, porque o Partido Socialista é muito diferente do Bloco de Esquerda, é muito diferente do Partido Comunista e se forem eles a lembrar essa diferença, pela nossa parte não há qualquer irritabilidade.

Há linhas vermelhas, ou seja, discursos que não poderão ser feitos ou ultrapassados mesmo em campanha eleitoral e que possam pôr em causa, de alguma forma, um entendimento futuro?
Eu não creio que isso esteja em causa. Conhecemos as nossas diferenças. Foi no conhecimento dessas nossas diferenças que foram celebrados os acordos que permitiram uma estabilidade muito impressiva ao longo destes quatro anos de mandato, que foi possível fazer transformações importantes e obter sucessos assinaláveis. Evidentemente, em alguns casos, nós não seguimos aquilo que seria a orientação do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista e que teria dado mau resultado se assim fosse, mas a verdade é que este projeto é um projeto cujos méritos devem ser repartidos, porque este Governo não existia se não tivesse tido o apoio na sua investidura e em momentos essenciais, como na definição da política orçamental, quer pela parte do Bloco de Esquerda, quer pela parte do Partido Comunista, quer por parte do PEV.

O Bloco não esconde e afirmou na última Convenção que quer ser Governo na próxima legislatura. Vê um Governo do Partido Socialista com o Bloco sentado no Conselho de Ministros?
Como digo, o Bloco é um partido plural, com diversas composições internas. Evidentemente, para que existisse um Governo do Partido Socialista que integrasse o Bloco, o Bloco teria que alterar alguns dos seus posicionamentos sobre matérias que hoje considera essenciais e, portanto, teria que haver, naturalmente, uma correlação de forças diferente dentro do Bloco de Esquerda.
Nas circunstâncias atuais, eu dificilmente veria Catarina Martins como Ministra dos Negócios Estrangeiros ou Jerónimo de Sousa como Ministro da Defesa Nacional.

Seria mais fácil o entendimento com o PSD num cenário de PS sem maioria absoluta?
Eu penso que o cenário mais fácil é o de repetição desta experiência, naturalmente que com outros acordos, visto que estes foram esgotados no seu exercício e na sua execução, e acentuando também a necessidade de uma perspetiva reformista de que o País carece.
Isso significa que o Bloco e o PCP têm que ir além de uma perspetiva sindical, com que abordam muitos dos temas, para outra perspetiva de projeto de Governo e de sustentabilidade na sociedade portuguesa. Portanto, este debate está em aberto. Veremos como o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda explicitam as suas posições no decurso da próxima campanha eleitoral, mas eu acredito que serão reunidas condições, se o Partido Socialista não tiver a maioria suficiente para governar sem outros apoios. Veremos se o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista proporcionarão, ou não, o ambiente necessário para que se repita esta experiência que foi uma experiência bem-sucedida.

Afasta então, de todo, um entendimento com o PSD de Rui Rio?
Eu recordo que as últimas afirmações mais peremptórias que eu conheci em matéria de recusa de alianças, entre os partidos moderados da direita e da esquerda, foi a experiência alemã, onde todos juraram que não estariam no mesmo Governo. Mas a circunstância é que, se não existisse o Governo que hoje existe na Alemanha, existiria um vazio político completo.
Portanto, nunca poderemos dizer ‘não’. Agora, que nós não desejamos este cenário, não desejamos, porque entendemos…

Mas foi o senhor que disse que Rui Rio é um interlocutor seguro, com continuidade e previsibilidade, ou seja, aparentemente agrada-lhe.
Nós entendemos que a reunião do PSD e do PS num projeto governativo deixa a função de oposição aos extremos da vida política e reforça alternativas que se descentram da área mais moderada que o país pode ter e, por isso, é importante que cada um cumpra a sua missão do ponto de vista geopolítico. O PSD é hoje um partido do centro-direita, o Partido Socialista é hoje um partido do centro-esquerda, ou melhor dizendo, um partido central da esquerda portuguesa.

Mas há temas que são comuns aos dois partidos. Nesta legislatura foi possível entendimentos em duas ou três áreas, como por exemplo a descentralização. A regionalização é outra das áreas que pode aproximar António Costa de Rui Rio. O país precisa de regiões, diz o primeiro-ministro. É de esperar que um referendo à regionalização faça parte do programa eleitoral do PS?
Temos que esperar.  Mas o entendimento do Partido Socialista é – esse é o entendimento maioritário, não necessariamente o meu –, é de que houve necessidade e há um tempo próprio, houve necessidade de nos confrontarmos com a circunstância de sermos um dos países mais centralizados da Europa e há um tempo próprio no exercício dessa tarefa da descentralização progressiva do Estado.

Descentralização é uma coisa, regionalização é outra. Aquilo que eu pergunto é: a próxima legislatura vai ser a legislatura da regionalização? Ou é expectável que o seja?
Vai ser a legislatura da aceitação da descentralização político-administrativa, de que uma das formas é a regionalização. Mas é muito provável que isso ainda não esteja em causa no próximo quadriénio. Agora, este passo que foi dado é um passo muito significativo do ponto de vista da descentralização de competências para a administração local. Portugal continental não é uma região com tradição regionalista, é eminentemente de tradição municipalista e, portanto, segue um percurso político-administrativo diferente, por exemplo, do que ocorre na Madeira ou nos Açores, onde a tradição é outra, em particular nos Açores. Este caminho no sentido de fenómenos de desconcentração, de descentralização e de regionalização é feito no tempo e numa dimensão de médio a longo prazo.

Outra área onde o PSD desejaria um acordo, e o Presidente da República apelou a que assim fosse, a justiça, mas a falta de resposta do PS à proposta do PSD por uma reforma da justiça e a ausência de iniciativas do PS parece indiciar que estão satisfeitos, que não há nada a mudar na justiça.
Há muito a mudar na justiça e, neste momento, por exemplo, (Mas então falta vontade política?) há iniciativas que estão a ser preparadas no âmbito do Ministério da Justiça e que constituem reformas estruturais. O Ministério da Justiça já tem a seu crédito importantes ganhos do ponto de vista, por exemplo, da diminuição de pendências, do aumento das taxas da resolução processual, o que é muito importante no nosso País.
Mas há algo que deve ser dito a propósito da forma como me colocou a sua pergunta. Se nós entrarmos em acordo sobre matérias que vão desde a segurança social, a justiça, os grandes investimentos, a defesa, a segurança,  todos estes e outros temas, os portugueses pensarão se esta divisão em partidos não se tratará de uma construção meramente artificial, porque, enfim, se estão de acordo com tudo o que é essencial, o que é que os distingue? Apenas as pessoas?

Mas não há áreas onde deve haver consenso, como por exemplo essa, a justiça?
Apenas as pessoas quererem exercer o poder? Tem que haver uma diferença entre os partidos políticos e existem diferenças significativas entre os partidos políticos que devem ser respeitadas e respeitadas perante os eleitores. Agora, sobre as matérias em relação às quais haja possibilidades de haver consenso, esse consenso não deve ser negado por razões táticas ou partidárias. Isso sim.

Isso significa que esse consenso não passa pela justiça?
Em alguns aspetos, por exemplo, que foram conhecidos da apresentação das propostas do PSD sobre justiça, nós não estamos de acordo. Aliás, fizemos essa aproximação. A própria Ministra da Justiça recebeu delegações partidárias e verificou-se que existe uma diferenciação sobre essas matérias.
Eu, em todo o caso, aprecio a conduta da nova direção do PSD de desejar que sobre diversas matérias possam existir acordos. Não me parece que ainda tenha condições de estabilidade e de segurança nessa interlocução, mas o que é necessário, o que é importante, é que não se perca de vista a possibilidade de esses acordos poderem ser feitos uma vez consolidadas as opiniões de cada força partidária.

Estamos a entrar na última parte desta entrevista. Vou ter que ir a temas mais atuais. CTT – é possível a empresa voltar à esfera pública? O PCP e o Bloco defendem isso, defendem que sim. O PM atira uma resposta para mais para a frente, para o momento da renegociação do contrato de concessão. A sua opinião? Está a correr mal esta concessão?
Sim, não está a correr bem. O regulador tem tido um comportamento felizmente mais ativo no acompanhamento desta situação. Como sabe, os ativos da empresa no processo de privatização não foram para a componente do serviço postal, o que dificulta hoje a gestão ou uma transformação radical quanto à posição do Estado, mas eu creio que existem condições ou que o Estado deve caminhar no sentido de tomar uma posição no capital da empresa.

Montepio. Quando Tomás Correia se candidatou à presidência da Associação Mutualista recaíam já sobre ele fortes suspeitas de irregularidades. Ainda assim teve o apoio de todo o que eu chamaria bloco central, várias figuras do PS estiveram presentes na candidatura. Vítor Melícias, ele próprio muito próximo do PS veio dizer este fim de semana que não é um ‘secretáriozeco’ ou um ministro que irão afastar Tomás Correia. Certo é que, apesar deste tom, o padre Melícias ficou ainda sem resposta por parte do Governo do PS. Há uma cumplicidade do PS e do Governo com Tomás Correia?
Não, não creio que isso aconteça. Tomás Correia foi condenado pelo Banco de Portugal, embora ainda numa fase que não está concluída, a uma multa muito significativa por práticas irregulares quando dirigia o banco. Coloca-se, assim, inevitavelmente, na sequência dessa decisão, um problema relativo à sua idoneidade.
Do nosso ponto de vista, isso caberia à Autoridade de Seguros e Fundos de Pensões, que não assumiu essa responsabilidade inicialmente. O Governo já aprovou um decreto-lei. O Presidente da República de imediato fez a sua promulgação, que localiza a responsabilidade de apreciação da qualificação profissional da idoneidade e de eventuais incompatibilidades ou impedimentos dos titulares dos órgãos sociais das associações mutualistas justamente na área da Autoridade de Seguros e Fundos de Pensões, e uma decisão deve ser rapidamente tomada.

E a Autoridade deve exercer essa decisão ainda esta semana? Ou seja, não deve perder mais tempo?
Deve fazê-lo o mais depressa possível.

Novo Banco. O Governo defende uma auditoria apenas para o período da resolução, o Presidente quer ir mais longe. Vamos assistir aqui a um conflito entre Governo e Presidente?
Não, não creio.

O Governo vai ceder e aceita alargar esta auditoria?
Não creio. O que o Governo tem dito é que não pode auditar ao Banco de Portugal e que não lhe compete fazer isso. Agora, o que nós temos que ter em presença neste caso do Novo Banco é que, evidentemente, quer a Comissão Europeia, quer o Banco de Portugal, quer o anterior Governo têm enormes responsabilidades na situação que nós encontramos. E é importante que os portugueses compreendam que o apoio à banca e o empenhamento que este Governo tem tido na estabilização do setor financeiro é fundamental. Estão em causa empregos, estão em causa não aumentar o número de lesados que já são muitos em Portugal da incúria bancária, está em causa a manutenção ou a criação de condições adequadas ao financiamento das famílias e das empresas, está em causa a estabilidade sistémica, está em causa a imagem externa do Estado e, portanto, quase tudo devemos fazer para que a situação da banca seja resolvida.
O Governo herdou uma situação muito má, com muitos problemas que foram empurrados pela barriga para a frente. Neste caso temos apenas a questão agora do Novo Banco para resolver, que tinha afinal um buraco maior do que se estimava. A Resolução em 2014 foi uma Resolução mal feita. Quando o PS entrou para o Governo, o Novo Banco precisava de mais de dois mil milhões de euros para o seu capital, estava à beira da insolvência (E a venda também não foi mal feita?) e, ou era liquidado, ou era nacionalizado, ou era vendido nos termos em que o foi.
Foi evidentemente uma venda sob pressão, mas as alternativas eram claramente piores. Mesmo assim, foi possível naqueles instantes, diminuir algumas responsabilidades futuras do Governo, mas através do Fundo de Resolução essas responsabilidades serão evidentemente assumidas. É verdade que o Fundo de Resolução tem também a participação de um banco público, que é a Caixa Geral de Depósitos, é verdade que é um empréstimo de fundos públicos ao Fundo de Resolução que só será pago mais tarde. Portanto, de certa forma, indiretamente, há um compromisso (Os contribuintes pagam.) do erário público, mas como em tudo na vida há um tempo em que se avalia aquilo que é mais importante. E o que era e continua a ser mais importante é não desestabilizar o sistema financeiro e não pôr em causa um todo por causa de uma parte que não está a funcionar bem.
Mas, o que é importante saber é como foi possível fazer a Resolução nos termos em que foi feita em 2014, como foi possível (Quem falhou mais aqui?) despejar no banco bom imparidades e perdas irrecuperáveis. E isso é fundamental saber para também se ter consciência de qual é o ponto zero que o Novo Banco teve depois da Resolução, porque o que está sobretudo em causa foram as imparidades que transitaram para o Novo Banco quando deviam ter ficado no banco mau.

Em toda esta crise do sistema bancário houve aqui falhas graves por parte do Banco de Portugal?
Sim, sem dúvida. Nós já dissemos isso… e não só no caso do Novo Banco. Por isso é importante, também, uma reforma estrutural do sistema de supervisão financeira em Portugal, o que penso que ainda terá condições de ser feito nesta legislatura, mantendo embora o atual modelo tripartido com um novo órgão de coordenação. Será um modelo que se aproximará mais do sistema europeu de supervisão financeira e que permitirá especializar melhor o acompanhamento que se impõe nessas áreas.

Alteração da lei da propaganda. O PSD quer proibir inaugurações em tempo de campanha eleitoral. O PS acompanha essa ideia? Pode-se contar com uma alteração legislativa a tempo das europeias, ou pelo menos a tempo das legislativas?
Eu peço-lhe desculpa, mas a pergunta devia ser se o PSD acompanha a ideia do Partido Socialista, visto que o Partido Socialista foi o primeiro partido a entender que as interpretações que estavam a ser feitas pela Comissão Nacional de Eleições eram precipitadas e, sobretudo, confusas.
Nós já entregámos aos vários partidos parlamentares uma proposta de clarificação da legislação em vigor e hoje ou amanhã contamos fazer a entrega desse diploma na Assembleia da República, proporcionando, por um lado, o esclarecimento das entidades a que se destina, por outro lado o período de aplicação confinando apenas ao período que sucede à apresentação de candidaturas e definindo e tipificando as mensagens que podem ser interditas ou permitidas.

Significa que não vamos continuar a assistir a tantas inaugurações até às eleições, como temos assistido, e de que se queixa o líder do PSD?
Essa dimensão é uma dimensão muito curiosa, porque, repare, ao mesmo tempo que se está a criticar o primeiro-ministro por fazer um roteiro da saúde por diversas instituições de saúde, onde naturalmente ele não só se confronta com aquilo que está a funcionar menos bem mas também com os sucessos e com aquilo que está a ser realizado, ao mesmo tempo que se critica isso parece que essas mesmas pessoas esquecem de criticar que o mesmo roteiro está a ser feito por uma das líderes da oposição, denunciando os problemas que o setor tem.
Portanto, não me parece que o Governo seja forçado a ser desarmado no debate político, ficando apenas essa prerrogativa para os partidos da oposição. Eu acho muito bem que o Governo mostre o que está a ser feito e que até aprenda nesses roteiros e apreenda aquilo que ainda é necessário.
Eu percebi, por exemplo, que nesta ronda que o senhor primeiro-ministro fez a diversos centros de saúde, hospitais e outras unidades de saúde, compreendeu, por um lado, que era necessário que fossem tomadas medidas imediatas no plano (Retirando a assinatura de Centeno, por exemplo…) do fortalecimento das políticas de pessoal e de substituição quer de pessoal temporário, quer de pessoal que atingiu a idade da reforma, o que ainda hoje terá sido anunciado, como também percebeu que é necessário um investimento muito maior nos equipamentos do sistema de saúde que permitam que o Serviço Nacional de Saúde tenha um desempenho melhor. Embora – continuo a dizê-lo – há instituições de saúde que têm um universo de utentes muito semelhante, que têm uma geografia muito semelhante, umas têm um bom desempenho, outras têm um desempenho menor. Portanto, há problemas de gestão e de eficiência que importa corrigir.

Carlos César, vai ser o próximo presidente da Assembleia da República?
Sabe, eu não tencionava sequer participar neste ciclo da vida política nacional. Fui convidado pelo secretário-geral do Partido Socialista, na sequência do meu envolvimento nas eleições primárias que o levaram à liderança do PS, fui convidado para ser candidato ou para integrar órgãos da mais diversa natureza no decurso desta legislatura. Aceitei esta incumbência, que seria menos entusiástica para outros dirigentes do Partido Socialista, para ajudar na (E não vai dizer que se retira? Insisto na pergunta) coordenação do Grupo Parlamentar. O meu entendimento é que o Partido Socialista deve prosseguir o caminho que está a fazer de renovação, de empenhamento de novas gerações na política e de novas gerações também mais jovens e mais enérgicas e, quando chegar ao seu tempo, que será muito em breve, darei conta das conversas que a este respeito já tive com o senhor primeiro-ministro e que terei que ter com, também, o líder do meu partido na Região Autónoma dos Açores.