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As crónicas de opinião são, isso mesmo, a opinião de quem a escreve e partilha. Podem até estar, e estão geralmente, associadas à informação que o autor tem disponível sobre o tema sobre o qual opina e com a qual pretende, não só exprimir o que pensa, mas também influenciar a opinião de outros. Sendo legítimo não é, porém, um processo inócuo e muito menos imparcial, ainda que não se possa generalizar pois, alguns autores evitam a abordagem de temas da atualidade, ou mesmo de factos históricos sobre os quais existe um distanciamento que permite emitir opinião com maior rigor e objetividade. Mas, ainda assim, os leitores não devem, digo eu que também publico opinião, deixar-se embalar pela prosa elaborada que, muitas das vezes, vem embrulhada como se tratasse de um assunto anódino, mas que bem analisado pretende atingir um determinado objetivo. Cronistas independentes, Não conheço.

Isto tudo a propósito de uma, entre outras, crónica radiofónica que versava sobre o atual presidente francês e uma sua recente ida ao Parlamento Europeu. Emmanuel Macron discursou perante um plenário onde era visível a contestação de alguns deputados à sua presença. Não por ser presidente de França, mas por ter em conjunto com a Inglaterra e os Estados Unidos ordenado o bombardeamento de um país soberano, infringindo a Carta das Nações Unidas e o Direito Internacional. Mas voltemos à crónica radiofónica a que me referi. O seu conteúdo fazia um resumo do pensamento político de Macron, designadamente o seu afastamento de qualquer ideologia política, do percurso que o levou à presidência de França e o futuro que, segundo o cronista, lhe estará predestinado no porvir próximo da União Europeia. Para Sena Santos, o cronista que ouço nas manhãs da Antena 1, Macron é uma promessa, assim como o timoneiro que irá dar um novo rumo à União Europeia. Enfim, uma opinião respeitável como qualquer outra, mas discutível como o são todas as opiniões.

Sena Santos não dedicou uma só palavra ao envolvimento francês, a mando de Macron, na agressão à Síria, nem à forte contestação popular de que o presidente é alvo no seu país, nem ao repúdio que alguns deputados do Parlamento Europeu expressaram contra a sua presença. Assim, só posso concluir que Sena Santos mais não pretendeu, com esta crónica, do que limpar a imagem de Macron e projetá-lo como protagonista de uma nova geração de políticos europeus ideologicamente assépticos. Como se isso fosse possível, como se as decisões políticas e o pensamento que lhe subjaz e, suporta as decisões políticas não fosse intrinsecamente ideológico e servisse, neste caso, os interesses de uma escassa minoria de cidadãos que detêm o poder financeiro que Macron serve e, do qual Sena Santos, ao que parece, é mais um acrítico prosélito.

Sena Santos ainda vai dando uma no cravo e outra na ferradura, mas há por aí muitos outros cronistas de opinião que nem se dão ao trabalho de o fazer, e, sob a capa da opinião independente papagueiam velhas significações com os vocábulos dos tempos modernos. Novas palavras a mesma semântica.

Mais grave ainda são os conteúdos informativos que, não raras vezes, trazem uma opinião ou juízo associado. Prática que descredibiliza a profissão e coloca em causa a importância da comunicação social. Não faltam por aí exemplos, maus exemplos de jornalistas a quem o erário público paga chorudamente, mas que não se coíbem de na descrição da notícia, que se devia resumir aos factos, emitirem opinião e juízos.

Se os meus textos de opinião são imparciais, Claro que não, mas não são do lado dominante, são do lado esquerdo. Por isso, talvez por isso não falte por aí quem os abomine e até gostasse de me manter calado, como num destes dias verifiquei ao ler um comentário online, num dos meus textos de opinião, que dizia apenas, Cala-te. Ou seja, dizia tudo.

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