Às forças políticas de esquerda exige-se coragem, muita coragem, para enfrentar os tempos de retrocesso civilizacional que se traduzem na ascensão de projetos políticos, protagonizados por personalidades com estilos diversos que vão desde o cavalheiro Macron, ao boçal Bolsonaro. Coragem que não pode apenas ser traduzida em lamentos pelos perigos que espreitam a “democracia liberal” e pela enunciação da necessidade de combater os populismos, a coragem necessária para evitar este crescendo do neoliberalismo que, sem máscaras assume a sua verdadeira natureza fascizante, tem de manifestar-se com soluções políticas que retomem os percursos assentes em valores ancorados na promoção e garantia da dignidade dos cidadãos, não seria necessário mais dos que os consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e prosseguir o caminho da evolução civilizacional assente em modelos de desenvolvimento sustentáveis.

As forças partidárias de esquerda, com as conhecidas exceções, afastaram-se da sua matriz ideológica e capitularam às teses do mercado abrindo espaço ao neoliberalismo e à continuada demonização dos que se mantêm firmes na defesa da intervenção do Estado em setores estratégicos da economia, mas também nos setores sociais como sejam a saúde, a educação e a segurança social.

Os resultados desta adesão às teses neoliberais do livre mercado, estão à vista. Pobreza, desemprego, concentração da riqueza, desigualdade, exclusão social. Estes e outros fatores promovem a marginalidade, a intolerância, o aumento da criminalidade, das dependências e, sobretudo, descontentamento e descrédito, mormente, entre as principais vítimas. Ou seja, os cidadãos deixam de acreditar, com razão, em projetos políticos que, não só perpetuam os seus problemas como lhes induzem falsas expetativas, mas que, sobretudo, aumenta o número de cidadãos que são empurrados para o limiar da pobreza e da exclusão.

O descontentamento e o descrédito têm sido capitalizados por personalidades à margem do discurso político tradicional. Esta tendência, como já referi em escritos anteriores, não é incompreensível. Embora me seja difícil aceitar pois, existem alternativas quer à esquerda que aderiu às políticas de direita, quer às forças e projetos políticos de cariz neofascista que se têm vindo a afirmar no continente europeu e americano.

Mas a coragem a que referi logo no início não pode limitar-se à constatação e ao lamento, a coragem tem de ir um pouco mais longe, sob pena do fenómeno que nos preocupa se metastatizar e se tornar irreversível.

Exige-se às forças políticas, ditas de esquerda, o regresso à sua matriz ideológica original e coragem para assumir as responsabilidades que têm na disseminação de ideias e práticas políticas que as aproximam da direita e que têm contribuído para a ascensão do neoliberalismo. Para simplificar, O PS é aos olhos dos cidadãos um partido de esquerda, mas o seu projeto político e a sua ação em nada o diferenciam dos partidos de direita. No atual contexto só a necessidade de diálogo à esquerda, para se manter no poder, levou o PS a infletir ligeiramente a sua prática política.

O exemplo nacional pode generalizar-se à Europa, com os resultados que estão à vista de todos e que no caso da França, da Espanha e da Grécia levou à erosão dos respetivos partidos socialistas. Só não vê quem não quer e, no PS não falta quem não queira ver.

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