Na sequência da apresentação do livro de Robert Sherman, ex-embaixador dos Estados Unidos em Portugal, no passado dia 3 de Dezembro, em Lisboa, com o título “Dez Milhões e Um”, e das entrevistas que entretanto concedeu a alguns jornais nacionais levantou-se alguma polémica na Região.

A controvérsia regional resulta, em minha opinião, de interpretações abusivas do que Robert Sherman afirmou nas suas declarações quando se referiu às medidas do seu país para minimizar os efeitos, na Terceira, do “downsizing” na base das Lajes.

Mas antes de me referir ao objeto da polémica, o voo da Delta sobre o qual escrevi em 26 de Maio de 2018, não posso deixar de me referir a um aspeto que, de alguma forma, nos dá a conhecer melhor este homem. Ao olhar para Lisboa, segundo o que se pode ler na entrevista ao Expresso, Robert Sherman terá perguntado, “De que é que acham que gosto mais nesta paisagem?”. E sem esperar por qualquer palpite do jornalista, respondeu, “As gruas.” Pois, a mim as gruas que rasgam o céu de Lisboa incomodam-me, gosto mais do Tejo e da luz única que ilumina as colinas da nossa capital.

Quanto às afirmações de Robert Sherman a propósito das medidas que, segundo o próprio, foram, ou estão a ser implementadas para mitigar os problemas sociais e económicos resultantes da alteração do paradigma de utilização da base das Lajes pelas forças armadas dos Estados Unidos, eu diria que não passam de um enunciado de boas intenções para consumo dos “Dez milhões…”. E se quem por aqui vive tem disso consciência, quem ler a entrevista do ex-embaixador facilmente constata que o lançamento de microssatélites, o estudo das alterações climáticas, ou os protocolos celebrados entre universidades envolvem outros países para além dos Estados Unidos, eu diria mesmo que em alguns destes casos os Estados Unidos nem sequer são parte, ou parceiro.

Quanto ao voo da Delta que foi referido por Robert Sherman há, em minha opinião, um claro abuso de interpretação, embora a ligação de Nova Iorque a Ponta Delgada, tenha sido referida pelo ex-embaixador. Expressei, como já referi, a minha opinião no início desta operação e que aqui transcrevo, “A vinda da DELTA até pode ter constituído uma surpresa, e para mim foi, mas procurei saber porquê este súbito interesse da DELTA na rota Nova York/Ponta Delgada, por certo não seria pela procura dos açorianos, e claro que não é. A operação terá sido desenhada por operadores turísticos dos Estados Unidos, designadamente um operador ligado à DELTA, que pretende oferecer os Açores como um destino turístico que, por enquanto, está em alta e que tem tido procura por um segmento de cidadãos estado-unidenses que procuram destinos seguros e de proximidade. Se existe algum acordo financeiro entre a Associação de Turismo dos Açores (ATA) e os operadores turísticos dos Estados Unidos, desconheço, mas não estranho se ele existir.” (26 de Maio de Maio de 2018).

Nada do que Robert Sherman afirmou sobre esta operação da Delta faz alterar a minha opinião. Trata-se de uma iniciativa comercial que nada tem a ver com medidas de mitigação pelo “downsizing” da Base das Lajes. Se o fosse a voo seria certamente para a Terceira e teria sido incluído no pacote um acordo “interline” com a SATA que permitiria facilidades de deslocação para outras ilhas Região. Por outro lado, é a própria Delta a recusar, também para 2019, um acordo “interline” com a SATA, deixando que os seus clientes possam escolher, sem facilidades, deslocar-se para outras ilhas da nossa Região. O que é bom, desde logo para a SATA Air Açores que, como sabemos, não tem mãos a medir para cumprir as exigências comerciais, do Verão IATA, mais os reencaminhamentos que nos deixam sem lugares e à beira de um ataque de nervos.

Compreendo a posição da Câmara de Comércio de Angra a quem compete defender os interesses dos operadores turísticos e hoteleiros da sua jurisdição, mas o caminho não será certamente por aqui.

Não pretendo aconselhar e muito menos ensinar nada aos representantes dos empresários da Terceira, S. Jorge e Graciosa julgo, porém, que estas ilhas têm atratividade para que os turistas que chegam a S. Miguel nos voos da Delta possam, por sua livre iniciativa e como já se verificou em 2018, procurarem outros destinos dentro da Região. A promoção do destino e a oferta de condições favoráveis será a solução para a captação dos turistas estado-unidenses que nos chegam diretamente de Nova Iorque.

Quanto ao papel de Robert Sherman no que ao processo da Base das Lajes diz respeito, eu diria com algum conhecimento de causa, que ele fez o que dele se esperava serviu os interesses dos Estados Unidos e, Vasco Cordeiro serviu os interesses da Região e de Portugal. Logo não poderia ser subserviente.

Sei que este texto já vai longo, contudo não posso deixar de deixar uma pergunta. Qual terá sido o papel de Robert Sherman no desfecho do caso da venda do Novo Banco à Lone Star!? A pergunta é especulativa, Talvez. Mas como o ex-embaixador integra o Conselho Geral do Novo Banco, julgo que a questão tem alguma pertinência.

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