Aníbal Pires: A praga das fake news

Com as eleições presidenciais brasileiras as fake news (notícias falsas) atingiram uma dimensão preocupante. Não são apenas os apoiantes da candidatura derrotada que denunciam a interferência das fake news nos resultados eleitorais, são também, e um pouco por todo o Mundo, jornalistas, analistas e académicos que manifestam a sua preocupação pela difusão massiva de notícias construídas à margem da realidade e que visam induzir representação erróneas sobre os adversários políticos. Esta estratégia terá produzido os seus efeitos e influenciado uma parte significativa do eleitorado brasileiro. Não pretendo dizer, com isto, que a vitória de Bolsonaro se deve, apenas, à utilização de fake news, Não, não é isso. A sociedade brasileira e a organização política no Brasil são peculiares e complexas existindo um conjunto de variáveis que, no seu conjunto, ditaram o resultado eleitoral.

As fake news não são uma novidade que nos chegou do Brasil, elas coexistem, desde sempre, com a informação, mas terá sido com a campanha eleitoral, de 2016, para a eleição presidencial nos Estados Unidos que a sua prática se vulgarizou.

Mas a difusão de fake news não é uma novidade distante. Em Portugal, com outra dimensão, mas com eficácia, também há quem, de forma consciente e com objetivos bem definidos, as financie, produza e divulgue através das redes sociais e das plataformas de comunicação e informação que a internet nos proporciona, sendo que, por vezes a comunicação social as absorve e divulga conferindo-lhes uma veracidade que não têm. Por outro lado, a reposição da verdade mesmo que utilizando os mesmos suportes e espaços, virtuais, ou não, nunca desfaz a mistificação e, muito menos corrige os efeitos produzidos pela sua divulgação.

Nas últimas semanas, em Portugal, foram denunciadas algumas situações de divulgação de fake news cujos alvos são organizações ou personalidades políticas dos partidos da esquerda do espetro político nacional. Sendo que uma das mais recentes, ou mesmo a mais recente, visa o primeiro-ministro António Costa a propósito da publicação de uma foto de Isabel Moreira, deputada do PS, a pintar as unhas durante o plenário da Assembleia da República e da suposta intenção de António Costa de processar judicialmente o autor da imagem.

A foto é real e causou uma enorme onda de indignação daí até à criação do rumor, por via de uma fake new, de que António Costa iria processar o fotógrafo foi um pequeno passo, sabendo-se que, a ser verdade essa atitude de António Costa, provocaria, naturalmente, uma indignação ainda maior. Já agora, pergunto eu, quando leu esta notícia, se é que leu, parou para pensar e questionou-se sobre o ridículo do seu conteúdo. Também Jerónimo Sousa e Catarina Martins já foram alvo da rede portuguesa que produz e divulga notícias falsas, mas ao que parece é sobre futebol que, em Portugal, mais fake news são postas a circular.

Sabendo-se quem são os financiadores, os autores e os difusores de fake news em Portugal é legítimo perguntar se o Ministério Público já promoveu alguma diligência ou ação para que os envolvidos sejam penalizados e as páginas encerradas, sob pena deste fenómeno, potenciado pelas redes sociais, continuar a alastrar e a provocar efeitos nefastos na sociedade portuguesa e no Mundo.

Não terá sido por acaso que um dos painéis da Web Summit, que está a decorrer em Lisboa, foi sobre esta temática. “É possível travar o crescimento das ‘fake news’?” Ana Brnabic, primeira-ministra da Sérvia, David Pemsel, do grupo do jornal “The Guardian”, e Mitchell Baker, da Mozilla, foram os animadores deste painel onde foi utilizada uma expressão que sintetiza, não só a antiga preocupação sobre a difusão de notícias falsas, mas também os seus efeitos. “Uma mentira chega a meio mundo antes de a verdade ter oportunidade de vestir as calças.”, (Winston Churchill).

Podem e devem-se adotar medidas para minimizar a difusão de fake news através das redes sociais, mas dificilmente lhes será possível por cobro. Uma vez mais a solução terá de passar pela educação e formação, pelo desenvolvimento do espírito crítico, ou seja, por desenvolver o pensamento autónomo sustentado no conhecimento e na cultura.