Aníbal Pires: À margem

Hoje é um daqueles dias cinzentos em que o melhor local para estar é no aconchego do meu recanto. Ler, ouvir música, talvez um filme. Tudo isto antes ou depois de cumprir o meu horário de trabalho e de um passeio à beira mar, nem sempre, ou necessariamente por esta ordem.

Gostava que fosse sempre assim, mas nem sempre acontece, quer nos dias cinzentos, quer nos dias que se enchem de luz e os verdes e azuis predominam. Nem sempre assim acontece por solicitações de origem diversa às quais procuro responder, tantas e tantas vezes com prejuízo do meu tempo e dos meus pequenos prazeres. Não me estou a queixar do uso que fazem do meu tempo, embora necessite dele para mim, disponibilizo-o de boa vontade sem ficar preso a qualquer sentimento de perda.

Para ter tempo para dar libertei-me de alguns passatempos que me ocupavam tempo e eram uma inutilidade, para além de me indisporem. Refiro-me concretamente ao consumo de conteúdos televisivos em tempo real. Não vejo televisão e gosto de passear pelos dias cinzentos. É estranho, pois que seja. Estas minhas opções não me tornam um marginal, quando muito pertenço a uma minoria que se está a antecipar ao fim anunciado do consumo de televisão, tal como o conhecemos hoje. Quanto ao meu gosto de passear pelos dias cinzentos, não tenho explicação, Gosto e pronto.

Se por vezes me sinto à margem, sem dúvida. Não tanto quando passeio pelos dias cinzentos, mas porque nem sempre tenho opinião sobre o que, em determinado momento, domina a discussão pública.

Conheces aquele programa de televisão a Supernanny, Não, nunca vi, nem faço tenção de ver. Mas sei que a audiência aumentou e as instituições que têm a seu cargo a defesa dos superiores interesses das crianças, bem assim como outras organizações da chamada sociedade civil estão a tratar de repor, julgo eu, a legalidade, acabando com o programa. Se não me questiono, Claro que sim. Estranho mesmo é como aquele conteúdo televisivo, e muitos outros, tenha audiência que justifique a sua emissão, mas isso é uma outra discussão para ter num dia em que o cinzento se ausente, não do dia, mas das mentes que consomem, ia dizer sem critério, mas não seria muito rigoroso porque existe um critério subjacente à visualização de um, ao invés de outro programa televisivo, pois a oferta tem um espetro temático alargado.

Não me considero um marginal procuro apenas cultivar a minha liberdade individual. Sinto-me melhor quando, nos dias cinzentos, descortino a luz que atravessa os filtros do nevoeiro informacional e se reflete de azul naquele pedaço de mar, ou cintila em gradientes de verde num pedaço da paisagem. É tão mais aliciante passear pelos dias cinzentos e encontrar o nosso próprio caminho por entre as neblinas que aos poucos se dissipam e deixam que observe a policromia luxuriante da vida.

Os dias cinzentos convidam-me a sair e procurar por perto o que não descortino à distância e isso faz-me bem ao corpo e à alma. É um prazer sempre renovado de descoberta e aprendizagem.

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