Com 12,97% e 541.345 votos, a militante do PS – que não teve o apoio do seu partido, mas apenas do PAN e do Livre – conseguiu ser a mulher mais votada de sempre em presidenciais, mas tal não se traduziu no “sobressalto cívico” pedido pelo antigo eurodeputado Francisco Assis à esquerda democrática para que a candidata ficasse a uma “distância significativa” do líder do Chega, que bateu por um ponto percentual.

Ana Gomes conseguiu ficar em segundo lugar menos distritos do que Ventura – sete dos 18 distritos nacionais (mais os Açores) -, mas fê-lo nos mais populosos, como Lisboa, Porto e Setúbal, e em todo o litoral, à exceção de Leiria.

Apesar de a candidata ter assumido como responsabilidade pessoal sua o ‘falhanço’ da segunda volta – Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito com mais de 60% dos votos -, carregou nas críticas ao PS, por não ter dado indicação de voto em qualquer candidato e ter contribuído para a vitória da “direita democrática”.

O PS definiu a sua posição política sobre as eleições presidenciais em 07 de novembro, durante uma reunião da Comissão Nacional em que foi aprovada por larga maioria, com apenas duas abstenções e cinco votos contra, uma moção em que o partido não indicou apoio oficial a nenhum dos candidatos na corrida a Belém.

Nessa moção sobre as eleições presidenciais, que foi apresentada pelo secretário-geral do PS, António Costa, refere-se expressamente a “avaliação positiva” do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República e saúda-se depois a candidatura da socialista Ana Gomes.

Essa posição não foi esquecida no domingo à noite pela candidata, que acusou o PS de “deserção” e Costa de ser o “principal responsável” por essa falta de comparência.

Comparando com as eleições de há cinco anos, o PS também deu liberdade de voto aos militantes nos dois candidatos do seu espaço político que se apresentaram a Belém, mas juntos somaram mais do dobro dos votos agora obtidos por Ana Gomes.

O independente Sampaio da Nóvoa acabou por congregar muitos apoios à esquerda e somou 22,8% dos votos (mais de um milhão), enquanto a militante e antiga presidente do PS Maria de Belém foi a surpresa da noite, pela negativa, quedando-se pelo quarto lugar, com apenas 4,25% dos votos (correspondentes a cerca de 196 mil votos).

Ainda assim, estes dois candidatos do espaço juntos conseguiram mais de 1,25 milhões de votos, contra os 541 mil obtidos hoje por Ana Gomes.

A última vez que o PS apoiou um candidato presidencial foi há dez anos, em 2011, quando Manuel Alegre defrontou Cavaco Silva na sua reeleição, ficando-se pelos 19,7% (e cerca de 820 mil votos), abaixo do valor alcançado quando foi candidato sem o apoio do partido contra Mário Soares em 2006, eleição em que teve o voto de mais de um milhão de portugueses.

O presidente do PS, Carlos César, classificou no domingo a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa como uma “boa notícia” e defendeu que, “graças aos eleitores socialistas, a democracia venceu na primeira volta” e “o extremismo de direita foi derrotado” no país, destacando o papel da candidata Ana Gomes.

A antiga eurodeputada contou com algumas figuras de peso do partido ao longo da campanha, como Pedro Nuno Santos, Manuel Alegre, Isabel Soares ou Vera Jardim, mas, devido às restrições da pandemia de covid-19, apenas um de forma presencial, Francisco Assis, precisamente o primeiro a lançá-la para Belém.

A falta de convergência à esquerda também não foi esquecida pela candidata – os três candidatos de esquerda, Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias, tiveram globalmente no domingo o resultado mais baixo de sempre em presidenciais -, que lamentou que o BE e PCP preferissem ter as suas “agendas próprias” e ‘desperdiçado’ os dois terços dos votos da esquerda nas últimas legislativas.

Apesar das críticas ao PS, Ana Gomes fez questão de dizer que mantém a condição de militante de base socialista e não quis autoexcluir nada do seu futuro político, nem sequer uma nova candidatura a Presidente da República.

“Nunca me reformarei da política”, assegurou a diplomata de carreira, que se despediu desta noite eleitoral com um “até à próxima”.