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O mar dos Açores é encruzilhada de ecossistemas, centro de investigação, observação de cetáceos após ter sido caça à baleia, mergulho, turismo, velejadores, baías e portos, peixe, posição estratégica, isolamento, horizonte, poema e geografia – é tanto que é tudo.

“Nos Açores, o mar é tudo”, repetem escritores, investigadores e agentes culturais ligados aos Açores, certos do potencial imenso da localização no meio do oceano Atlântico e das condicionantes de um arquipélago de nove ilhas, nem todas com ilha em frente, cada uma sempre dependente do barco ou do avião-autocarro para sair dela.

A lonjura até pode ser trunfo, e “há uma nova geração a olhar o mar dos Açores e o exotismo da região como oportunidade”, assegura Luís Banrezes, fundador da editora discográfica açoriana Marca Pistola e cofundador do festival Tremor, que caminha para a 10.ª edição, em 2023.

“Os Açores são possibilidade de criar, de fazer diferente das grandes cidades. A marca do mar está muito presente, despertando o interesse por um universo de desconhecimento”, descreve.

Para os açorianos, “a geografia vale outro tanto como a história, como escreveu [Vitorino] Nemésio”, e “tudo é sempre resultado da geografia”, observa, por seu turno, Joel Neto.

“O mar é tudo”, resume o escritor, natural da ilha Terceira, destacando o potencial de um mar que tem “400 vezes o tamanho das suas ilhas”.

Os Açores, refere, têm 57% da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal e cerca de um terço da ZEE da União Europeia: “Temos um território infinito com uma diversidade de recursos enorme, que só com uma boa exploração nos farão sair da cauda do desenvolvimento, invertendo os dramáticos indicadores de abandono escolar, pobreza, violência doméstica, suicídio jovem ou défice de participação cívica das mulheres.”

Localizada “no cruzamento de uma corrente do golfo com uma série de fenómenos atmosféricos”, a região é “um caldo meteorológico singular” e um “verdadeiro caldeirão natural”.

“Não é fácil instalar vida em ilhas assim. Mas é possível fazer mais a partir dos recursos que temos”, sustenta.

No arquipélago, o mar está na mesa, alimentando restauração e pescadores (o setor teve proveitos de 34 milhões de euros em 2021), é parque arqueológico subaquático, naufrágios ou aves marinhas no Corvo, a mais pequena ilha açoriana, além de ser, ainda hoje, artesanato feito de escamas, com 25 artífices certificadas com a marca da região.

Classificados como ‘hope spot’ (lugar de esperança) para a conservação dos oceanos por uma organização não governamental norte-americana, os Açores ambicionam agora, através do Governo Regional, superar a meta da União Europeia e ter 30% de Áreas Marinhas Protegidas até 2023, tornando-se numa “referência planetária” na conservação da biodiversidade.

O executivo prevê ainda investir num novo navio de investigação e avança com a construção do Tecnopolo, para desenvolver atividades ligadas ao mar, nomeadamente a biotecnologia marinha, biomateriais, recursos minerais ou tecnologias marinhas.

Telmo Morato, do instituto Okeanos, centro de investigação e desenvolvimento da Universidade dos Açores (UAc), desconhece local no mundo onde “se congreguem tantos pontos de interesse” de estudo e exploração sobre o mar profundo.

“Estão mesmo no topo da Dorsal Média Atlântica, a maior cadeia montanhosa submarina. É a maior cordilheira do planeta Terra, que se estende desde a Islândia até à Antártida, o que fornece à região o privilégio de ter acesso a vários ecossistemas”, descreve.

Por isso, o cientista apresenta o arquipélago como “centro mundial de investigação do mar” e “um dos locais onde se produz mais informação sobre o mar profundo”.

“A junção tripla de placas tectónicas, com vários ecossistemas, constitui uma verdadeira encruzilhada biológica, um mosaico ecológico que faz dos Açores um lugar muito especial”, indica também o biólogo marinho Filipe Porteiro, do Departamento de Oceanografia e Pescas da UAc.

Segundo o especialista, os Açores são “os maiores produtores de ciência e conhecimento na área das fontes hidrotermais, profundidade, cetáceos, esponjas e corais”.

Acresce que, no Atlântico Norte, esta foi das últimas regiões a deixar de caçar cachalotes, em 1984. A “mudança de paradigma na relação entre o homem e o animal”, recorda o cientista, surgiu a par de uma “valorização histórica e cultural”, com a criação da Comissão do Património Baleeiro Regional e vários museus em diferentes ilhas.

“Quase que em simultâneo, houve uma transferência desse conhecimento para observar as baleias. Usaram-se as vigias em terra e todo o conhecimento adquirido durante a caça à baleia. Até as mesmas pessoas foram integradas nessa nova atividade, que surgiu logo em 1989”, acrescenta.

Cerca de 30 anos depois, as atividades de “ecoturismo marinho”, que não se cingem apenas à observação de cetáceos mas abrangem também o mergulho com tubarões ou jamantas, rendem cerca de 210 milhões de euros por ano na região.

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