Miguel Vieira, Licenciado em Gestão pela Universidade dos Açores

Fez na passado terça-feira (12 de Maio) dois meses que o Governo da República decretou o encerramento das escolas, naquele que foi, seguramente, o primeiro despertar de consciências para o turbilhão que se seguiria. No mesmo dia, o executivo açoriano alinhava, também ele , pelo mesmo diapasão, fazendo crer a todos que nem o facto de vivermos em ilhas distantes nos colocaria a salvo de uma pandemia que, àquela data, havia já vitimado 4600 pessoas e infectado 125.000 (números globais), sendo que em Portugal o balanço era de “apenas” 79 infectados.

Hoje, dia em que me debruço mais aprofundadamente sobre o tema, o número de mortos em todo o planeta caminha a passos largos para os 303.000, e o de infectados já ultrapassou os 4.500.000, sendo que, em Portugal, a estatística revela 1184 óbitos e atingirá, muito em breve, a fasquia dos 29.000 infectados.

A ilusória acepção de que esta nova estirpe da Sars seria -e citando o controverso Presidente do Brasil, Bolsonaro- uma “gripezinha”, há muito caiu por terra, e hoje, temos todos a certeza de estar a enfrentar, quiçá, o maior desafio das nossas vidas.

Nos Açores, fruto das drásticas medidas (quase) prontamente estabelecidas -sendo as duas mais emblemáticas o fecho do espaço aéreo entre as ilhas e a obrigatoriedade de quarentena nos hotéis para todos os que chegam-, os 145 casos confirmados e 16 mortes (que não adoçam o amargo sentimento de perca, é um facto!) acabam por fazer de nós um povo menos massacrado em comparação com tantas outras paragens que, fruto de abordagens negligentes e pouco esclarecidas, deixaram apanhar-se no “engodo” da catástrofe.

Chegamos então ao momento em que, fruto do sufoco generalizado, surgem os primeiros “iluminados” a tentar ganhar adeptos para as suas contraproducentes teorias. Doutores -cuja respeitabilidade e honorabilidade não estão aqui postos em causa!- que vaticinam ilegalidades constitucionais às medidas que , diria eu, nos têm desviado do desígnio apocalíptico das valas comuns. Do cheiro nauseabundo da morte, que já por tantas vezes nos assoberbou sem que vivalma acorresse para nos salvar.

Mais não ! Chega !

Os Açores têm condições inigualáveis para se afirmar como a primeira Região Europeia “Covid Free”. Consegui-lo, seria um marco de competência e elevaria o Arquipélago a um restrito patamar de excelência.

A questão da economia, cuja vulnerabilidade é factual, poderia mesmo sair a ganhar, uma vez que temos intramuros recursos mais que suficientes para reinventar toda a lógica de auto-subsistência, reduzindo a dependência do exterior ao estritamente necessário.

Com confiança renovada, e sem o assombro de novos casos importados, o povo voltaria às ruas, mas desta feita para consumir o nosso produto, no nosso comércio, revitalizando, pelo menos a curto prazo, os nossos serviços, o nosso turismo e as nossas empresas, libertando dessa forma o erário público da necessidade de financiamento da maior parte das entidades operadoras da Região.

É preciso coragem ! Coragem para arriscar, coragem para decidir, coragem para combater os grandes interesses económicos, mas também, e sobretudo, coragem para honrar a memória dos nossos antepassados, que, se há testemunho que nos deixaram, foi o da resiliência abnegada !

Não seria demais, mesmo a terminar esta minha reflexão, recordar aos arautos da desgraça o Grande Mestre Vitorino Nemésio, que sobre tempo escreveu:

“A tempo entrei no tempo,
sem tempo dele sairei:
Homem moderno, 
Antigo serei.
Evito o inferno
contra tempo, eterno
à paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo :
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei.”