Joaquim Machado, Deputado do PSD/Açores ALRAA

Há quem esteja tão comprometido com a sua narrativa que se esquece de consultar a realidade. Uma amnésia assim tão seletiva não é um problema, antes uma conveniente virtude que a alguns importa cultivar.

Digo isto a propósito das lamentações que vão na praça sobre os indicadores do turismo. Não faltam títulos grandes, vistosos, repetidos, alarmistas, incisivos. Apocalípticos. Mesmo assim, ninguém ousa olhar as estatísticas para além da referência que mais lhe convém – pouco importa o tempo longo. E tudo parece ter uma só origem, o fim da operação da Ryanair.

Nos últimos três anos, as dormidas nos Açores cresceram em média 11 por cento, isto é, de 3,2 para 4,5 milhões (nem vale a pena comparar estes dados com os do período anterior à pandemia).

Desconheço qualquer teoria económica que sustente crescimentos percentuais para sempre, mais ainda em se tratando de aumentos desta ordem de grandeza. Chegaria inevitavelmente um momento em que surgiriam limitações físicas, ambientais e sociais. Afinal, os recordes não crescem até ao infinito e uma desaceleração não deve ser tomada por colapso.

Não estou com isto a negar a redução verificada no presente ano. A estatística confirma o decréscimo das dormidas. Mas no mundo menos excitante dos factos, 2026 caminha para ser o segundo melhor ano turístico de sempre nos Açores. Em circunstâncias normais, isso seria motivo de satisfação ou, pelo menos, de análise serena, sem manchete prévia.

A realidade, essa velha teimosa, continua a aparecer sem convite e a estragar excelentes exercícios de dramatização. Veremos.

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