Organizar um congresso sobre Educação é mais do que reunir especialistas ou discutir metodologias. É, também, um ato de coragem na escolha de temáticas, que são colocadas em debate, e que refletem acerca da sociedade que se pretende construir.

É nesse contexto que a 2.ª edição do Congresso Insular Olhar o Futuro – Inovar na Intervenção Pedagógica, que se realiza a 16 e 17 de outubro, na Praia da Vitória, merece o meu reconhecimento.

Falar de educação, hoje, é falar de inclusão, que implica ter coragem de olhar para a realidade das crianças migrantes, num tempo em que ganham espaço narrativas de rejeição, desconfiança e exclusão, existindo uma diferença profunda entre discutir os desafios da inclusão e transformar a diferença numa ameaça, sendo que a escola, enquanto espaço de encontro e de liberdade, não pode partilhar apenas conteúdos, mas, também, educar para a partilha e respeito.

Por isso, colocar a inclusão de crianças migrantes no centro da reflexão é fundamental. Não porque existam respostas simples, mas porque estes desafios precisam de ser discutidos com conhecimento, serenidade e humanidade.

O mesmo acontece quando falamos de Ciência. Num tempo em que o conhecimento científico é confrontado com desinformação e negacionismos, defender a ciência não significa acreditar cegamente em tudo o que se apresenta como científico, mas sim, ensinar a questionar, verificar fontes, distinguir evidência de opinião e compreender que o conhecimento evolui. Uma escola crítica não pode ter medo da dúvida, nem desistir da evidência.

E há temas ainda mais difíceis, porque tocam aquilo que existe de mais íntimo nas famílias: as expectativas que se constroem aquando de uma gravidez e o sofrimento que pode surgir quando a pessoa que cresce diante de nós não corresponde àquilo que foi imaginado. Existe um luto silencioso quando os sonhos projetados pela família não coincidem com a realidade. Pode ser o percurso escolar, profissional, afetivo ou a forma de estar no mundo. Falar desse luto não significa legitimar a rejeição, mas sim a criação de espaço para compreender a dor, desconstruir expectativas e aprender a amar sem exigir que ninguém seja aquilo que foi idealizado.

É isto que a educação deve fazer: substituir a expectativa pela escuta, o julgamento pela compreensão e a exclusão pela pertença.

Na minha perspetiva, a maior virtude de um congresso é a de não apresentar respostas fechadas, mas sim, a coragem de formular perguntas incómodas. Que escola queremos? Quem deixamos para trás? O que se faz quando a diferença desafia? Como se distingue conhecimento de crença? E até onde está a sociedade preparada para aceitar que as crianças e jovens não existem para concretizar os projetos que outros desenharam para si?

Num tempo de discursos rápidos, certezas e fronteiras entre “nós” e “os outros”, criar espaços de reflexão é resistir à simplificação. A Educação precisa de conhecimento e coragem para acolher, questionar e ouvir. E, sobretudo, para compreender que nenhuma criança deve ter de provar que merece pertencer.

“Olhar o Futuro” não é apenas o nome de um congresso. É uma responsabilidade, porque significa decidir, no presente, que sociedade queremos entregar à geração que se encontra nas nossas escolas.

Para mim, não há maior inovação pedagógica do que educar para um mundo onde ninguém tenha de deixar de ser quem é para pertencer.

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