Este não era o artigo que eu tinha pensado escrever. Há 70 anos, uma criança com 6 encontrava um piano que tinha por casa. A sua vida ficou marcada por essa descoberta, num quadro familiar que lhe permitiu brincar com a criatividade e a curiosidade. Aquela descoberta veio moldar toda a sua existência a partir daí. Refiro-me ao Jorge Palma, que deixámos de poder ver, ao vivo, esta semana.
Quer se aprecie o músico e o poeta, quer não se goste dele, a nossa existência, individual e coletiva, ficou marcada pela sua passagem entre nós. Palma cantou-nos o belo do humanamente frágil. Mostrou-nos o nosso lado mais fraco e que este pode elevar-se quando abraçamos a diversidade e nos apoiamos, numa amizade fundada na solidariedade, no respeito, no amor profundo, quando nos aproximamos a partir daquilo que a Humanidade tem de melhor.
Lembrar-me-ei sempre, com humor e saudade, que ir vê-lo ao vivo significava aturar as dependências que o caraterizavam. As suas monumentais bebedeiras. Agora, é hora de recordar o Homem de Abril, solidário, sempre pronto a estender a mão para ajudar o próximo e a levantar a voz por aquilo que considerava justo. Pelo Serviço Público e Universal de Saúde. Pela Escola Pública. Pela Paz verdadeira, e não pela paz imposta à força, a pax romana. O Homem sempre pronto a encontrar o seu lugar ao lado de quem trabalha e luta por uma vida melhor. Que tomou posição pelo direito de todos, mulheres, homens, novos, velhos, viverem com dignidade.
O sistema capitalista, e em particular o neoliberalismo, preferem prender a criatividade e a curiosidade, por saberem que nelas reside a chave para construir a liberdade de cada um e de todos. Portanto, o desaparecimento do Jorge Palma levou-me a duas perguntas, sem respostas simples.
Como teria sido a sua e as nossas vidas se há 70 anos não tivesse descoberto o piano que lhe libertou o génio?
Quantos outros Palmas teriam sido descobertos, se vivêssemos num outro sistema em que, ao contrário do capitalista, fossem construídas as condições para que cada um explorasse aquilo que tem de único e de melhor?






















