Um projeto digno para comemorar os 600 anos da Descoberta e Povoamento dos Açores só pode ter o reflexo da natureza comunitária destas nossas gentes. De nove territórios habitados, no centro do Atlântico, e muitas outras presenças, pelo mundo fora. Da forma como aqui acolhemos pessoas vindas de todos os cantos do mundo, e com a nossa arte de bem receber soubemos transformar quem tenha vindo de onde quer que seja, para passar a ser apenas como nós, ilhéu e insular de coração, para o resto da sua existência. É o reflexo de uma certeza assente nessa identidade. Os que aqui nasceram ou para aqui vieram. Somos primeiramente açorianos, antes de sermos o que quer seja para lá disso.

Falo, claro está, da açorianidade de Vitorino Nemésio. Recuemos a 1932, quando, ainda sob a Ditadura Nacional, se celebrou o V Centenário do Descobrimento dos Açores. As comemorações tomaram como referência 1432, seguindo a tradição cronística que atribuía a Gonçalo Velho a chegada à ilha de Santa Maria nesse ano, embora a cronologia da descoberta já fosse discutida. Hoje, a historiografia adota geralmente 1427 como referência para a descoberta portuguesa de algumas ilhas do arquipélago, com base na leitura mais aceite de uma inscrição da carta náutica do cartógrafo Gabriel de Vallseca, elaborada em 1439, que associa essa descoberta ao navegador identificado como Diogo de Silves. Descoberta e povoamento foram, contudo, processos distintos, que não ocorreram simultaneamente nas nove ilhas.

Foi também em 1932 que Nemésio publicou, na revista Insula, o texto «Açorianidade», procurando exprimir um modo açoriano de estar e de ser. O termo nasceu por analogia com conceitos como a hispanidade, num diálogo intelectual em que a obra de Miguel de Unamuno teve influência. E, para Nemésio, o que era ser açoriano? O próprio reconhecia que as imagens utilizadas não bastavam para esclarecer os segredos do ser açoriano e manifestava o desejo de aprofundar essa reflexão. É uma pergunta demasiado complexa para caber no limite de caracteres deste artigo e um desafio que aquele vulto legou às gerações que se seguiram. Hoje, em vésperas do VI Centenário, é tempo de procurarmos compreender melhor quem somos.

A Missão de Comemorações dos 600 anos da Descoberta e Povoamento dos Açores começou formalmente os seus trabalhos no mês de setembro, dando continuidade ao que já se tinha iniciado nos últimos dezoito meses. Contactos institucionais, aproximação à sociedade civil e promoção de atividades pontuais, de cariz preparatório. Destacamos a conversa com a jornalista Marta Silva, que decorreu no Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima, do Museu de Angra do Heroísmo, em torno do jornalismo nos Açores. Será parte de um ciclo mais abrangente de diálogos, já iniciado em abril deste ano com uma mesa-redonda sobre Autonomia, em São Miguel, com o Professor Rui Albuquerque (dedicado aos 200 anos da Carta Constitucional de 1826) e com o Coronel Aprígio Ramalho (o 25 de abril de 1974 e outras revoluções). São momentos para incorporar um podcast a lançar em dezembro, e abrir o apetite para o que se seguirá em 2027.

Destaque igual para o lançamento de um concurso de fotografia, dedicado aos “Lugares do Povoamento”, incentivando a criatividade da sociedade civil, partindo do tema das Descobertas e dos primeiros anos deste nosso arquipélago, numa parceria com a Associação Cultural Burra de Milho. Internamente, a Estrutura de Missão avançou com o desenvolvimento de procedimentos administrativos necessários ao seu funcionamento, e preparou as suas plataformas digitais nas redes sociais, que serão ponto de contacto essencial com o público, numa era cada vez mais focada nesses diálogos. O calendário oficial e respetivo portal ficarão disponíveis nas próximas semanas.

Todas estas aparentemente pequenas missões são parte do quadro maior destas Comemorações, que é um quadro que procura as nossas comunidades. Comunidades que são todas as que constituem o nosso poder local, e todas as que se espraiaram pelo país e pelo mundo, e formaram uma rede global que agora desejamos fortalecer com esta efeméride. A Missão é, de facto, a de cumprir o ensejo de Nemésio, e ir ao encontro de uma Açorianidade que seja identidade material e imaterial e faça de nós uma população com um papel a assumir na história atual e no que legaremos às gerações futuras.

Tal não é possível sem o encontro com as pessoas que vivem nas nossas ruas e nas nossas casas, em cada ilha, mas também com as que construíram Casas dos Açores, associações e outras organizações no Canadá, nos Estados Unidos, no Brasil e em muitos outros pontos do globo. É preciso viver o arquipélago e também sair dele para melhor o entender, retomando a imagem de Saramago em O Conto da Ilha Desconhecida. É necessário compreender o vínculo que, ao longo de gerações, tem mantido vivos os Açores, tanto no meio do Atlântico como na língua, nas referências culturais e nas tradições preservadas por tantas famílias.

Acreditamos que essa Açorianidade é algo que só poderemos compreender com a ajuda de todos e com o diálogo aberto e constante. É esse o motivo que nos leva a apelar à participação da sociedade civil, lá fora e por cá. Quem desejar apresentar ideias à Estrutura de Missão, ou manifestar vontade de colaborar nas atividades que se seguirão, poderá participar através de um Grupo de Voluntários e Colaboradores que será constituído ainda este ano, e pretende evidenciar essa união insular. Até lá, todos os contactos podem ser feitos por via direta, nesta primeira fase através do email geral da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, e, em breve, com a abertura das redes sociais e futuros portais de comunicação.

Recordo-me de, há mais de uma década, ter apresentado um trabalho de seminário dedicado à Açorianidade numa cadeira lecionada pelo Professor Carlos Cordeiro, entretanto já passado à eternidade pela injustiça da vida. Lembro as palavras bondosas do docente, que acolheu a minha juventude com bonomia e pedagogia. Estava, como ainda estou, muito longe de saber responder ao repto de Nemésio. Não creio que ele tenha sido feito para ser respondido por uma pessoa só. Se desejamos um dia encontrar o verdadeiro significado da Açorianidade, será pelas mãos de outro dos nossos pensadores que poderemos despertar para as suas pistas. Tomemos, então, as palavras de Antero de Quental, no seu poema Comunhão, como ponto de partida para este VI Centenário:

“Seguirei meu caminho confiado,

Entre esses vultos mudos, mas amigos,
Na humilde fé de obscuras gerações,
Na comunhão dos nossos pais antigos.”

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