Uma greve corresponde a uma interrupção coletiva, voluntária e temporária do trabalho. É uma manifestação de quem se fartou de procurar soluções para um mundo em desespero. É, na sua vertente mais genuína, uma das expressões máximas do regime democrático: permite que a população exerça pressão coletiva sobre quem decide. É um direito que nos assiste, e que é sistematicamente desvalorizado por quem nos governa.
Um boicote é também uma interrupção coletiva, voluntária e temporária de uma atividade. Na sua essência, é a aplicação de um princípio semelhante ao da greve ao mercado neoliberal e à sociedade ultra capitalista onde vivemos. É uma ferramenta promovida pelas vozes do novo populismo: boicotar a SATA para obrigar o Governo a vender; deixar de ir a um restaurante porque colocou arco-íris nos menus; protestar contra uma peça de teatro dedicada ao genocídio na Palestina.
São exemplos distintos que se cruzam na sua essência, mas que têm sido manipulados para construir uma mentalidade de clubismo. O populismo criou a narrativa da greve enquanto ferramenta da esquerda, orientada por sindicatos cheios de agendas obscuras. Depois, faz exatamente o mesmo, com outro nome. E as pessoas ignoram a realidade que os seus olhos observam, porque a narrativa que lhes é transmitida é outra.
A greve foi uma das poucas respostas que fizeram recuar o neoliberalismo português, quando Passos Coelho se viu confrontado com uma das maiores manifestações de democracia que conhecemos depois do 25 de Abril. Agora que voltamos a tempos negros, a greve continua a ser uma das armas que nos resta.
Todavia, importa falar a sério quando falamos de greves. Paralisar o país seria uma maneira evidente de obrigar Montenegro a recuar na Educação, na Saúde ou na tentativa de enfraquecer a Segurança Social. Uma greve geral seria forma de obrigar Luís Montenegro a ter em conta os princípios sociais-democratas que regem a origem cada vez mais longínqua do seu partido. Uma greve setorial, concertada e feita em conformidade, seria também um caminho para despertar a opinião pública para a Cultura ou o Ambiente, esquecidos debaixo dos maremotos do mercado.
Mas há outra questão que não podemos ignorar: o papel da comunicação social. Num tempo em que jornalistas e órgãos de comunicação regionais e nacionais são alvo de ataques e tentativas de descredibilização, é essencial defender o jornalismo livre e independente. A LUSA e a RTP Açores, por exemplo, têm uma responsabilidade insubstituível na democracia: informar, investigar, questionar os poderes e mostrar-nos realidades. Defender a comunicação social não significa concordar com todas as notícias ou opções editoriais. Significa reconhecer que, sem jornalismo, a democracia fica mais pobre. Precisamos de uma imprensa capaz de mostrar a insatisfação e de dar voz a quem vive as consequências das decisões políticas.
Estamos descontentes com os preços dos supermercados. Não é possível viver com dignidade nos centros das cidades portuguesas. Fazer férias é um luxo da classe média alta. Sobreviver é uma necessidade em vias de extinção. Que ensinemos as crianças a conhecer e defender os seus direitos, como gerações anteriores fizeram.
Uma grande greve, com impacto real. Lembra-me um sonho lindo: o país voltar à rua, ao lugar onde mais ordena. Precisamos de exigir mais de todas e todos nós. Já, em tempos, derrotámos o Coelho. O Luís é uma versão mais fraca. O Ventura será uma versão mais lapidada. Precisamos de nos preparar para a luta que aí vem.






















