É setembro e vestimos o amarelo. Durante algumas semanas, aborda-se a saúde mental, partilham-se frases nas redes sociais, defende-se a prevenção do suicídio e repete-se que é necessário acabar com o estigma. Depois, vem outubro e voltamos à normalidade.

Embora “Setembro Amarelo” seja um alerta para a saúde mental, não esqueçamos que esta doença, não é uma campanha sazonal, que não se adoece apenas em setembro e que não se previne nem se cuida apenas durante um mês.

O verdadeiro teste começa quando estamos perante uma pessoa que está triste, ansiosa, cansada, que repete a mesma história vezes sem conta e que, simplesmente, não consegue fingir que está tudo bem. Nesse momento, demasiadas vezes, a linguagem muda. De repente, essa pessoa é “tóxica”, “negativa”, “dramática” e, embora a narrativa seja a de que é importante falar, surge o afastamento quando ela fala demasiado. Dizemos que ninguém deve sofrer sozinho, mas cansamo-nos de ouvir quem sofre há demasiado tempo, não faltando a afirmação particularmente cruel: “Não se cura quem não quer.”

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 727 mil pessoas morreram por suicídio em 2021, relembrando que o estigma e o silêncio continuam a dificultar a procura de ajuda. Nos Açores, esta realidade é particularmente preocupante. Dados apresentados em 2025 apontam para uma taxa de 14,7 suicídios por 100 mil habitantes, face aos 8,9 no conjunto do país, revelando uma realidade que não permite que o problema seja tratado como uma estatística distante.

Falar de saúde mental não pode significar apenas falar de doença. Temos de falar das condições que a podem destruir: solidão, pobreza, baixos salários, precariedade, assédio moral, ambientes de trabalho tóxicos, sobrecarga e também o peso de cuidar de familiares idosos.

A OMS e a Organização Internacional do Trabalho estimam que a depressão e a ansiedade estejam associadas à perda de cerca de 12 mil milhões de dias de trabalho por ano, alertando, ainda, para riscos psicossociais como cargas de trabalho excessivas, comportamentos negativos e ambientes que provocam sofrimento.

Por isso, quando discutimos produtividade e baixas médicas, seria prudente questionar: quanto da baixa produtividade resulta de pessoas que estão doentes e quanto resulta das condições em que trabalham? O que aconteceu? Quantas “facadas” foram infligidas antes de alguém chegar à situação de não conseguir trabalhar e se deparar com o abismo?

Atualmente, assiste-se à suspeição de pessoas doentes e de especialistas que se tornaram no elo mais fraco, numa Região com dificuldade em captar profissionais e que apresenta uma taxa de suicídio alarmante. No entanto, garanto que o único fingimento da pessoa doente é o de estar bem e que a mesma não está a fugir ao trabalho, mas, sim, literalmente, a tentar recuperar para conseguir voltar a trabalhar e a viver.

Relembrando que a doença mental não escolhe idades, profissões e cargos, ressalvo a importância de se interrogar acerca do ambiente laboral; se as pessoas têm salários que lhes permitam viver; se quem cuida de familiares tem apoio; e se quem adoece psicologicamente encontra tratamento, compreensão e tempo para recuperar.

Devo a vida ao Serviço Regional de Saúde e às especialidades que não desistiram quando eu já o estava a fazer. Sou-lhes muito grata. Mas deixo o alerta: setembro pode ser o mês em que falamos mais alto sobre saúde mental, mas a prevenção começa muito antes. E, sobretudo, continua depois de setembro.

Setembro começa em janeiro e a reflexão que proponho é: o que se permite nos outros onze meses?

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