O único marceneiro do Corvo, que produz diariamente as típicas fechaduras de madeira da ilha, reaproveita troncos velhos para manter a produção na matéria-prima original, por o cedro do mato ser uma espécie protegida por lei.

O irlandês David Tibor Posch, mais conhecido por David T.P., de 35 anos, mudou-se em 2020 para a mais pequena ilha dos Açores e passou a dedicar-se à manufatura das icónicas fechaduras feitas em madeira de cedro do mato (‘Juniperus brevifolia’), uma espécie endémica dos Açores, que beneficia do estatuto de proteção.

Para continuar a utilizar a matéria-prima original, recorre a barrotes daquela árvore nativa dos Açores que são retirados de casas velhas, no momento da reabilitação, pois tradicionalmente esta madeira era usada na parte superior das portas e nos telhados.

Alguns barrotes são oferecidos pelos proprietários que o artesão recompensa oferecendo uma fechadura em madeira.

“Já recebi algumas ofertas da comunidade e já comprei algumas madeiras de casas velhas. Então, já tenho um pequeno ‘stock’ de cedro do mato”, disse David T.P. à agência Lusa.

Apesar de referir que o seu objetivo “não é fazer mil peças por ano”, mas sim “fazer peças únicas”, admite que, no futuro, provavelmente, terá de utilizar uma madeira alternativa, recorrendo a outras árvores com características idênticas ao cedro do mato.

A madeira do cedro do mato é “muito dura”, mas também “muito fácil de trabalhar”, esclareceu, enquanto se entregava à elaboração de mais uma encomenda de fechaduras.

O cedro do mato é “muito resistente” ao bicho da madeira, prosseguiu, indicando ter conhecimento de peças “com mais de 100 ou 200 anos” que “estão perfeitas” no seu interior.

Por agora, o marceneiro garante que das suas mãos continuarão a sair diariamente peças únicas e produzidas com madeira que “tem séculos” de existência, que trabalha na oficina “Aparas de Madeira”.

A carpintaria (localmente designada por Chapo, a partir do termo inglês ‘shop’) está situada no centro histórico da vila do Corvo e foi-lhe cedida gratuitamente pelo proprietário, Luís Jorge.

Depois de aprender as “voltas” da arte com os mais antigos da ilha e de introduzir algumas atualizações na maquinaria utilizada, David T.P. produz fechaduras de madeira que são aplicadas em portas funcionais e miniaturas que os visitantes compram como recordação.

Aos turistas também é dada possibilidade de concluírem a pequena peça que levam consigo, pois executam a tarefa em “cinco ou 10 minutos”, transformando a visita à oficina numa experiência “mais autêntica e única”, garante.

Já na feitura das fechaduras utilizadas nas portas, o artesão perde mais tempo, pois o processo completo é moroso e pode levar um dia a executar. A fechadura do Corvo é dividida em cinco partes, todas em madeira: caixa, fecho ou trinco, chave, “vermelhos” (dentes de retenção) e tampa.

Cada fechadura é vendida a partir de 45 euros, mas uma encomenda mais específica poderá atingir os 200 euros. Já as miniaturas são vendidas a cerca de sete euros a unidade.

David T.P. já vendeu fechaduras para várias partes do mundo e com diversos fins, tanto para unidades de turismo (Austrália e Itália), como para utilização em edifícios de uso diário (ilhas Faroé, no Atlântico Norte).

Apesar de serem mais procuradas como peças de decoração, no Corvo, ainda é possível encontrá-las em uso, sobretudo nas casas de abrigo que estão espalhadas pelos terrenos agrícolas.

O irlandês, de raízes alemãs e húngaras, que se rendeu aos encantos e ao sossego da ilha mais pequena dos Açores, com cerca de 400 habitantes, tem transmitido a arte a quem o procura.

Na “Aparas de Madeira” já acolheu vários voluntários que têm mostrado interesse em aprender, como duas raparigas, uma canadiana e outra americana, e um rapaz italiano que passou recentemente pela ilha.

Alguns jovens do Corvo também já manifestam interesse em aprender, o que regista com agrado, mas a arte “tem muitos passos” e “é preciso tempo”, advertiu.

As típicas fechaduras do Corvo estão certificadas pela marca “Artesanato dos Açores” desde 2017 e estão “sinalizadas e previamente registadas para virem a ser uma Indicação Geográfica”, segundo fonte do Governo Regional dos Açores.

David T.P. é o único artesão de fechaduras de madeira registado no CADA – Centro de Artesanato e Design dos Açores. Em 2023 recebeu uma menção honrosa no concurso da Feira Internacional de Artesanato, na categoria de artesanato tradicional.

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