Bill Gates acaba de publicar no seu site pessoal uma importante reflexão em torno dos desafios da Inteligência Artificial (IA), o modo como o mundo está a governar essa tecnologia e o seu impacto na esfera humana. O ensaio “The turbulent AI era is here. The choices we make now are critical” merece ser lido atentamente em todo o mundo, para que não acabemos nós, humanos, reféns da IA e da sua crescente intromissão na vida de todos nós.
Tal como muitos impulsionadores do desenvolvimento económico e social, mundial e local, quer-se que a inovação seja rápida e efetiva. A Europa, por exemplo, precisa de vencer a batalha da inovação tecnológica, senão perderá competitividade, produtividade e deixará de ser relevante na disputa das grandes potências mundiais. Porém, o avanço trazido pela IA não conhece paralelo. Não se trata de mais uma revolução industrial, agora com uma nova face, tal como aquelas que a História conheceu. A IA é capaz de pensar e de se mover como um humano. Até é capaz de o substituir e isso não é o mesmo que uma máquina substituir a força laboral numa fábrica da Grã-Bretanha no final do século XVIII.
Precisamos de recuperar algum espírito ludita na forma como encaramos os riscos da IA, sem cair, porém, na rejeição da tecnologia e das oportunidades que ela poderá oferecer em domínios específicos. Ninguém porá em causa que a saúde é uma área em que a IA pode resolver problemas complexos. Também ninguém desconfiará dos seus méritos para facilitar a vida do cidadão no contacto e na relação com o Estado. Bill Gates fala nos casos de pessoas sobrecarregadas com processos burocráticos na relação com os serviços governamentais e a forma como a IA pode simplificar e tornar mais eficiente as respostas públicas. A perspetiva benévola sobre a IA reside na palavra ‘pode’, como sublinha o ensaísta, precisamente porque o controlo que temos ou não temos sobre esta tecnologia é a grande questão dos nossos tempos: ou os humanos dominam a IA ou a IA domina os humanos?
Mas são os riscos que mais devem preocupar sociedades e governos. Bill Gates diz que a transição para a nova era da IA será “um dos períodos mais turbulentos da história humana” e que não estamos preparados para isso. Em termos laborais, os primeiros sinais de desemprego tecnológico começam a surgir e não se entende como é que sindicatos ou forças políticas de diferentes quadrantes ainda não tenham colocado esta discussão no centro da agenda. Dirão os otimistas que onde houver o fim de um emprego, surgirá outro, mas é com algum pessimismo que Bill Gates olha para a questão, dizendo que “sem as políticas adequadas haverá muito menos do que existem hoje”. Ainda no que respeita ao trabalho, as pessoas em geral terão de lidar com a iminência de perder o emprego, de se terem de requalificar e encontrar outra forma de sustento. O ensaísta faz, e bem, a pergunta: como pedir a um homem de 55 anos que sempre trabalhou na construção civil que, daqui em diante, terá de ser cuidador de pessoas idosas num lar? Portanto, a situação tem uma dimensão económica, mas tem, sobretudo, dimensões psicológicas e sociológicas para as quais ainda nem começamos a perspetivar soluções.
A par do trabalho, os relacionamentos humanos também são vistos como estando sob possível ataque da IA. Ocupemo-nos disto porque estamos, infelizmente, a entrar num mundo novo que, apesar de ser pretensamente de progresso, de inovação e de mudança, é, na verdade, um mundo de isolamento, de solidão e de perda progressiva de competências emocionais básicas. A revista Sábado publicou recentemente uma longa reportagem “O Amor ligado à Máquina” que nos revela como é que muitas relações funcionam atualmente, baseadas no contacto entre um humano e uma máquina. Segundo a reportagem, entre 2022 e 2025, o número de aplicações que oferecem companheiros de IA aumentou 700%. A Character AI, uma das aplicações, registou, em 2025, 20 milhões de utilizadores ativos por mês. Estas relações não se comparam às humanas: o companheiro está disponível 24 horas por dia e diz tudo o que o humano quer ouvir. A consequência disto é tenebrosa: pessoas cada vez mais distantes e incompetentes para gerir sentimentos e frustrações. Incapazes, no fundo, de amar e de se relacionar com outros humanos. A situação torna-se ainda mais grave quando falamos de crianças e jovens que recorrem cada vez mais a chatbots para companhia e as redes sociais para incorporarem modos de ser e de agir em sociedade. Esta exposição juvenil a redes sociais, a IA e a toda esta tecnologia que se intromete na vida privada de cada um é um cocktail explosivo que se traduz em dependências digitais crescentes, exposição a conteúdos violentos, instrumentalização por influencers reverenciados, sono prejudicado, ansiedade crescente e aumento do cyberbullying. Os Estados, um pouco por todo o mundo, estão a agir e a impor limites no uso das tecnologias digitais por crianças e jovens e esse é um caminho de bom senso que não pode conhecer falta de coragem e iniciativa.
Sem nos determos muito na educação, este é um dos setores em que a IA pode ajudar ou desajudar, consoante a forma como é utilizada. Bill Gates salienta que a IA pode permitir que as “pessoas aprendam mais do que nunca”, mas também pode levar “muitas pessoas a aprenderem menos”, lembrando que o uso intenso de IA pode estar associado a uma menor capacidade de pensamento crítico e a processos de atrofia cognitiva.
No fim do ensaio, o autor deixa no ar a hipótese de que haja uma espécie de “reserva humana” em relação à IA, ou seja, que deverão existir, por exemplo, empregos reservados a humanos. Apela ainda para que haja mais monitorização e coordenação da implementação da IA em todo o mundo, algo que, no seu entender, não está a ser feito. Fruto das querelas geopolíticas, da corrida às armas e das disputas comerciais, a ambição desmedida está a contribuir para que a IA evolua desmedidamente, sem controlo e sem genuína preocupação com o seu impacto na humanidade. Toda a propaganda tecnológica que nos chega dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, em Pequim, é uma demonstração de que a corrida à IA e à robotização é a nova corrida à Lua. Mas, se perdermos a Terra e os humanos, de que nos serve viver no mundo da Lua?






















