Nuno Miranda, Gestor de Projetos

É sempre um risco escrever sobre memórias pessoais. Sobretudo quando desconfiamos de que aquilo que julgamos ser uma memória coletiva talvez só diga alguma coisa a nós próprios.

Pode parecer conversa de velhote, sentado à sombra do alpendre num dia quente de verão, a garantir que “no meu tempo é que era”, antes de enumerar todos os problemas das novas gerações.

Não é isso que pretendo.

As gerações atuais têm experiências mais diversas, mais possibilidades e, como dizem os meus filhos, capacidade para fazer “cenas” bem mais interessantes do que aquelas que estavam ao nosso alcance.

Mas há memórias que não são melhores nem piores. São apenas nossas.

Este ano regressarei à ilha de Santa Maria pela altura da Maré de Agosto. Não me recordo ao certo em que ano fui pela primeira vez, nem das bandas que lá tocaram.

Lembro-me, isso sim, da viagem.

Era o tempo em que viajar de avião ainda não estava ao alcance de todas as bolsas e em que não existiam ligações marítimas regulares de passageiros entre São Miguel e Santa Maria. Uma ausência que, lamentavelmente, voltou a fazer parte do presente.

Nessa altura, dávamos o nome na Capitania de Ponta Delgada e ficávamos à espera de um lugar numa corveta da Marinha Portuguesa.

Desesperávamos pela resposta.

Mas valia a pena.

A adrenalina de partir carregado com mochila, tenda e comida. A viagem em grupo. O convívio a bordo. As amizades que se faziam entre o subir e o descer do barco sobre as ondas. Até os enjoos.

Tudo fazia parte da experiência.

Tudo ficou na memória.

À chegada a Vila do Porto, esperava-nos uma boleia ou a magnífica subida, todos carregados, até à paragem do autocarro. Seguia-se mais uma viagem, desta vez até à Praia Formosa.

Eram dias de música, praia e idas ao Paquete, a discoteca da época. Sabia a juventude. Sabia a liberdade. Sabia a sair da nossa ilha para descobrir outra, num tempo em que deixar os Açores continuava a ser um luxo que os ordenados da maioria dos nossos pais não permitiam.

Uns anos mais tarde, regressei. Desta vez, já não foi necessário dar o nome na Capitania. Bastou comprar uma passagem na Atlânticoline.

Fui de ferry e levei o carro.

Foi uma evolução significativa. O mar continuava a fazer-se sentir e continuavam a nascer conversas e amizades entre tantos que, como eu, tinham apanhado o barco. Mas, à chegada, tudo se tornou mais fácil. O carro levou as mochilas, a tenda foi trocada pelo hotel.

Levar a viatura deu-me também outra liberdade. Permitiu-me conhecer a ilha para além do festival. Dar um mergulho nos Anjos. Passear pelo Barreiro da Faneca. Ir a Santo Espírito comer biscoitos de orelha.

Soube a turismo cá dentro.

Hoje, viajar entre as ilhas é, em geral, mais simples. Para os residentes, as viagens de avião tornaram-se mais acessíveis, apesar das dificuldades que ainda existem em algumas ligações, sobretudo durante a época alta.

Chegamos mais depressa.

Mas há coisas que a rapidez não substitui.

Faz falta o espírito do barco. A liberdade de levar a nossa viatura. A possibilidade de começar a conhecer pessoas ainda antes de chegar ao destino.

Os meus filhos provavelmente nunca darão o nome numa Capitania à espera de um lugar numa corveta. Talvez nunca atravessem o mar com uma tenda, comida para vários dias e a incerteza de quem ainda não sabe bem como vai chegar ao destino.

Não terão estas memórias.

Terão outras.

E talvez um dia também descubram que algumas delas não vão marcar a geração seguinte. Não porque o seu tempo tenha sido melhor.

Apenas porque terá sido o seu.

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