Nasceu em Portugal um movimento de mulheres conservadoras. Nada contra. Vivemos num país onde uma mulher pode organizar-se, fazer política, defender as suas ideias e ocupar o espaço público. Ainda bem. Nem sempre foi assim. Uma mulher tem todo o direito de ser conservadora, defender a família tradicional, valorizar a maternidade, viver segundo a sua fé e não se identificar com o feminismo. A liberdade também é isto: poder fazer escolhas das quais os outros discordam.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal realizou em Sintra um primeiro encontro que juntou deputadas do Chega e outras figuras do espaço conservador. Entre as convidadas estava Priscila Costa, política brasileira do PL. Antes da viagem falou numa “missão internacional” e contou ter falado com Michelle e Flávio Bolsonaro sobre a sua participação. Já em Portugal, criticou aquilo a que chamou a “mentalidade abortista” europeia. Não há elementos que permitam dizer que o movimento pertence ao Chega e seria simplista afirmar que estamos apenas a importar o bolsonarismo. Mas estas ligações existem e merecem atenção, sobretudo porque estamos perante um movimento que acaba de nascer e ainda temos muito para perceber sobre aquilo que pretende ser.
A questão que mais me interessa é simples: que ideia de mulher está por trás deste movimento? Defender para nós próprias uma determinada forma de viver é uma coisa. Querer que essa forma passe a servir de medida para as restantes mulheres é outra. Posso acreditar na família e outra mulher pode escolher não casar. Posso valorizar a maternidade e outra pode não querer ser mãe. Posso ter fé sem esperar que todos vivam de acordo com aquilo em que acredito. Nenhuma destas escolhas torna uma mulher mais ou menos mulher.
Durante demasiado tempo disseram-nos qual era o nosso lugar: cuidar da casa e dos filhos, depender do marido, ficar afastadas da vida pública e das decisões. Muito do que hoje nos parece inaceitável já foi apresentado como natural. Não foi a natureza das mulheres que mudou. Mudaram os direitos. E há aqui uma contradição que me custa ignorar. As mulheres que hoje podem ser deputadas, juristas, dirigentes ou criar movimentos políticos beneficiam de direitos pelos quais outras tiveram de lutar. Isso não as obriga a serem feministas. Seria absurdo lutar pela liberdade das mulheres e depois querer determinar aquilo em que devem acreditar. O que importa saber é se essa mesma liberdade é reconhecida às outras.
Não me preocupa que alguém defenda a família tradicional ou viva segundo as suas convicções religiosas. A fronteira, para mim, está no momento em que uma escolha pessoal pretende transformar-se numa regra para todos. Também olho com desconfiança para a tentativa de associar os valores cristãos a uma determinada corrente política. A família e a vida importam. Mas também importam a dignidade, a justiça, a compaixão, o cuidado dos mais frágeis e o respeito pelo próximo. A fé não é propriedade da direita nem da esquerda. Muito menos de um partido.
Por isso, não é a existência de mulheres conservadoras que me incomoda. O que quero perceber é o que este movimento pretende conservar e até onde vai a liberdade que defende. Porque há uma pergunta que, no meio de todo este discurso sobre valores, merece ficar: conservar o quê? E à custa da liberdade de quem?






















