Açoriano Oriental de 10 de agosto, notícia de primeira página: “Mulheres participam mais no setor cultural, mas mandam menos.” Uma novidade que só o foi para quem ande alienado. O estudo anunciou o que já sabíamos. Só que há muito mais para se dizer sobre essa cultura, e sobre quem a gere. Até porque, no caso açoriano, quem deveria estar a pensar nas políticas de gestão cultural são mulheres várias, nomeadas para tal função.

O que é preciso, para começo de conversa, é bom senso. Considero-me uma pessoa solidária, principalmente na luta pela igualdade, seja de género ou do que quer que seja, mas não posso em abono da verdade branquear a realidade. As que atrás referi são responsáveis pelo cenário atual, no que concerne à Cultura. Nunca, em cinquenta anos de governos sucessivos, vivemos um tempo tão nefasto para a Cultura.

Veja-se a mais recente pantominice dos nossos governantes insulares. Em resposta a um requerimento que questionava acerca dos muitos investimentos que foram prometidos para 2026, na Cultura, e que ficaram pelo caminho. É que, tanto quanto sei, foram dezenas de candidaturas ao investimento do RJAAC que obtiveram notas altas, com apreciações discriminadas e elogiosas, e foram cortadas. Talvez que a lápis azul, nalguns casos. A história o dirá, se ainda houver história depois da atual política de gestão patrimonial.

O que sabemos agora, pelas palavras do Governo Regional, é que não havia dinheiro para pagar todos os investimentos aceites. Mas isso foi tornado público bem depois de terem enviado as notas boas e os elogios rasgados. Meses depois. Largas semanas volvidas, de trabalho feito pelos/as agentes culturais, criando redes de contacto, promovendo o arquipélago, trabalhando com as comunidades, para agora saberem que tudo o que fizeram já estava condenado à nascença. Provavelmente, a senhora Secretária e a sua equipa sabiam. Mas deixaram a casa arder.

Não perderei tempo a esmiuçar os anúncios em torno dos investimentos financeiros no Conservatório de Ponta Delgada, que serão feitos na sombra desta falta de apoios culturais no resto do arquipélago. Nem valerá muito a pena voltar ao tema da Capital Portuguesa da Cultura e de quanto se gastou para tapar os imbróglios que nos trouxeram até aqui. Nem tão pouco, dos mais de noventa mil euros para a Igreja de São José, em São Miguel. Todavia, importa falar ainda de um assunto que está a ter pouca atenção.

Atendendo ao facto de que metade dos contratos não se encontram disponíveis, na plataforma, e que os que estão, apresentam dificuldades sistemáticas na submissão depois de assinados, tudo indica que a Direção Regional da Cultura se prepara para cancelar o período de candidaturas ao RJAAC, passando-o para janeiro do próximo ano. O que significa, considerando os prazos habituais de resposta, que a maioria dos/as agentes culturais só saberá se teve direito a alguma migalha lá para agosto de 2027, com a maior sorte possível. Passando-se mais de metade do ano da descoberta dos Açores. Passando-se mais de seis meses sem saber se terão sustento, quanto mais cultura para abastecer o coração negro de quem os quer negar existência.

As mulheres mandam menos do que deviam na cultura. Mas, infelizmente, as que mandam, ficam aquém das expetativas. Deixo um apelo para que se faça uma greve geral na Cultura. Uma greve a sério, com impacto significativo, para que quem olha de cima para baixo possa finalmente perceber que as e os agentes culturais do nosso arquipélago são gente.

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