Nos Açores podemos acordar debaixo de chuva intensa, almoçar ao sol, passear no meio da bruma, sentir uns chuviscos ao entardecer e acabar o dia a ver a lua num céu limpo, com uma humidade digna dos trópicos.
O engraçado é que tudo isto pode acontecer na mesma ilha e, por vezes, no mesmo concelho.
Esta previsível instabilidade meteorológica quase nos obriga a manter um verdadeiro kit de sobrevivência climatérica na bagageira do carro. Um kit que pode ir das botas de cano e do impermeável aos chinelos e calções de praia.
Mesmo assim, o tempo costuma conceder-nos umas abertas que nos permitem usufruir das nossas magníficas zonas balneares e ter uns bons momentos de lagartixa ao sol.
Este ano, entre os nevoeiros persistentes que condicionaram fortemente o tráfego aéreo e a chuva que marcou julho e se prolongou pelos primeiros dias de agosto, este tem sido um verão que não sabe a verão.
Pode ser para compensar o de 2024, quando tivemos o verão mais quente desde 1941, com a temperatura da água do mar a atingir 27,3 graus. Valores quase tropicais. Por sorte, o nosso atum ainda saía da água pronto para entrar na lata.
Começo mesmo a pensar que o anticiclone que leva o nosso nome resolveu fugir de férias para norte ou está a ter crises de identidade.
Nós somos moldados pela terra, pelo mar e pelo clima. Foi essa açorianidade, feita de isolamento, incerteza e adaptação, que nos tornou resistentes e capazes de mudar de planos com a mesma facilidade com que o tempo muda de disposição.
Mas até a resistência precisa de uma pausa e não somos imunes às agruras climáticas.
É importante, contudo, não confundir uns verões atípicos com a demonstração isolada das alterações climáticas. Um período de chuva não prova, por si só, que o clima mudou. Da mesma forma, também não o desmente.
O tempo é aquilo que encontramos quando abrimos a janela. O clima é aquilo que os cientistas observam ao longo de décadas.
Há sempre quem, perante um dia frio ou chuvoso, pergunte com ar triunfante onde ficou o aquecimento global. É uma espécie de ciência feita à janela. As alterações climáticas significam mudanças nos padrões, maior instabilidade e fenómenos extremos mais frequentes.
Em São Miguel, um estudo baseado em mais de quatro décadas de dados meteorológicos identificou uma quebra significativa da chuva no outono e no inverno, aumentando a preocupação com períodos de seca e com a gestão da água. Ao mesmo tempo, a Região tem identificadas 43 bacias hidrográficas com risco elevado de inundação, 19 das quais em São Miguel.
Parece uma contradição.
Não é.
Pode chover menos ao longo do ano e chover demasiado em poucas horas. Pode haver mais dias quentes e continuar a existir um verão como este. Pode faltar água para a agricultura e, semanas depois, sobrar água nas ribeiras e termos inundações.
Numa região insular estas mudanças sentem-se de forma particularmente intensa. Na erosão da costa, na segurança das habitações, na agricultura, na disponibilidade de água, na saúde das nossas lagoas e até na atividade turística.
Preparar os Açores para esta realidade não significa viver em permanente estado de alarme. Significa gerir melhor a água, proteger a orla costeira, cuidar das ribeiras e grotas, adaptar a agricultura e impedir que se continue a construir contra a geografia.
Podemos continuar a levar botas e chinelos na bagageira. Faz parte da nossa prudência e, provavelmente, da nossa açorianidade.
O que não podemos é esconder a cabeça debaixo do chapéu-de-chuva.
Porque um chapéu-de-chuva protege-nos da chuva.
Não nos protege da realidade.






















