Infelizmente, cada vez é mais difícil encontrar uma história de sucesso pelas nossas nove ilhas. Pela minha natureza conversadora, mas também pela minha capacidade para fazer amizades e inimizades com bastante sucesso, sou confrontada com muitas histórias de vida. Mesmo agora, que as pessoas se deitam na toalha para descansar, recebo mensagens, ouço tristezas e distribuo abraços de compreensão, pois não posso fazer muito mais do que isso.

Há um número crescente de pessoas a passar fome nos Açores. Fome encapotada, escondida pelos cartões de crédito que lá permitem aguentar a conta do supermercado até ao próximo mês. Necessidades mascaradas pelos números do desemprego, onde toda a gente trabalha, mas ninguém sabe o que é descansar, e mesmo assim não é suficiente, porque mesmo com a percentagem a zero, há sempre um populista para vir falar das migrações ou dos vizinhos do lado. Os Açores estão piores hoje do que antes. É um facto, ao qual se juntam agora as lamentações dos liberais, empreendedores cuja visão se encontra limitada a si.

Por estes dias, vieram fazer mais uns comunicados a chorar porque a economia está em contração. Claro que está. Vivemos tempos de mediocridade, onde a aposta é na artificial inteligência, na moeda críptica e na liberalização dos mercados. O resultado está à vista. Menos desemprego, mais necessidades. Maior lucro, menor felicidade. Começou pelos mais fracos, mas já faz comichão aos engravatados. Qualquer pessoa com um entendimento básico de história económica saberia que era para aí que haveríamos de caminhar.

Os Açores fazem esta semana 599 anos. Santa Maria terá sido descoberta a 15 de agosto de 1427, segundo os que são mais entendidos do que eu. E o resto foi história que se foi fazendo. Essa história, que a cultura e a gestão política andam a deitar fora, é uma história que reflete a atualidade. Ciclos de más decisões, com piores decisores, a caminho de um precipício sem volta a dar. Economicamente, já estamos no ponto em que nem os vendedores de banha da cobra sabem dizer que está tudo bem. Politicamente, andam os populistas e os laranjas ao engano, a afiar as facas longas, sedentos de tomar o poder que lhes faltou tomar há uns anos. Acham que será aí, na coligação que vão finalmente assumir, que o arquipélago vai mudar.

Não compreendem que descuraram o essencial para a mudança. As pessoas estão ao abandono. Os preços pela hora da morte. A qualidade de vida desapareceu, dando lugar ao muro das lamentações das redes sociais que já não serve de placebo suficiente para o crescente grupo de pessoas que se indigna com este caos cada vez menos controlado.

Lembro-me de sonhar com mais quando entrei pela primeira vez na casa da nossa democracia, e nos corredores da nossa autonomia. Quando de lá saí pela última vez, vinha com a certeza de que já tínhamos passado as linhas vermelhas todas. O nível baixou para lá do que será humanamente possível recuperar nos próximos anos. Os Açores fazem 599 anos, e estão conservados como um vinho. Um vinho que nos esquecemos de colocar no sítio certo e ficou ali a marinar até não ser mais do que vinagre amargo. Não tratamos do nosso povo, e ele agora não é mais do que fel tornado gente.

A amargura de um aniversário, passado na toalha no quintal, onde não nos resta mais do que apanhar sol e ter esperança de que um dia, talvez daqui a dez ou vinte anos, as gerações vindouras possam acordar do desespero que lhes foi entregue, e recuperar o arquipélago que é seu. Até lá, ficamo-nos por frases feitas e aniversários inventados. O resto, é PRR e processos em tribunal.

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