Entrevista: Paulo Melo | Foto: Azores Burning Summer

O diretor do Azores Burning Summer, Filipe Tavares, defendeu um festival de “escala humana”, assente na qualidade artística, na sustentabilidade e numa relação próxima com a comunidade.

Em entrevista ao Açores 9, sublinha os desafios de organizar um evento na Praia dos Moinhos, no Porto Formoso, e explica como a edição de 2026, dedicada à Lusofonia e às diásporas africanas, procura afirmar os Açores como território de criação cultural, sem descurar a preservação ambiental.

Jornal Açores 9: O Azores Burning Summer distingue-se por assumir a sustentabilidade como um dos seus pilares. Que medidas concretas são implementadas para reduzir o impacto ambiental de um festival desta dimensão, realizado numa ilha e num território sensível como a Praia dos Moinhos?

Filipe Tavares: A sustentabilidade começa na forma como dimensionamos o festival. Não procuramos um evento de massas, mas uma escala compatível com a Praia dos Moinhos e com a qualidade da experiência.

Na operação, utilizamos estacionamento periférico, shuttle gratuito, veículos elétricos, copos reutilizáveis, ecopontos, sistemas de refill, cinzeiros individuais e medidas de eficiência energética e gestão de resíduos. O Eco Market promove projetos de ecodesign, reutilização e reciclagem, enquanto a Expo de Veículos Elétricos aproxima o público da mobilidade sustentável.

Procuramos também contratar regionalmente: cerca de 80% do investimento do festival é dirigido a empresas sediadas nos Açores. A sustentabilidade não é uma ação isolada, mas um conjunto de decisões que revemos e procuramos melhorar em cada edição.

JA9: A insularidade coloca desafios acrescidos, sobretudo ao nível dos transportes e da pegada carbónica. Como é que a organização procura minimizar esse impacto sem comprometer a qualidade artística do festival?

FT: A deslocação de artistas internacionais, equipas e equipamentos implica um impacto que não conseguimos eliminar. Seria pouco rigoroso afirmar o contrário. O nosso trabalho consiste em reduzi-lo nas áreas em que podemos intervir diretamente.

Privilegiamos fornecedores regionais, limitamos a dimensão da operação e reduzimos a circulação automóvel junto ao recinto através dos parques periféricos e do shuttle gratuito. Parte dos veículos apresentados na Expo de Veículos Elétricos é utilizada nesse serviço, permitindo que o público tenha uma experiência real de mobilidade elétrica.

A contabilização integral da pegada carbónica é uma área que queremos aprofundar. O objetivo é medir com maior rigor, reduzir progressivamente as emissões e, sempre que possível, adotar medidas credíveis de compensação para o impacto que não conseguimos evitar.

JA9: Ao longo dos anos, o festival tem crescido em notoriedade e atraído visitantes de várias origens. Como equilibram a dinamização turística da Ribeira Grande com a preservação da identidade e da tranquilidade da comunidade local?

FT: Esse equilíbrio começa por reconhecer que o Porto Formoso não é apenas o local onde instalamos o festival. É uma comunidade com identidade, memória e ritmos próprios.

Mantemos uma escala controlada e organizamos os acessos para reduzir o trânsito junto à Praia dos Moinhos. A organização contacta moradores, proprietários, hóspedes e trabalhadores da zona para facilitar acessos e durante o evento.

Procuramos também gerar valor local. A presença de público, artistas e equipas tem reflexos na restauração, no alojamento, no comércio e nos serviços, e cerca de 80% do investimento é realizado junto de empresas açorianas.

Queremos atrair visitantes interessados no território e na sua cultura, não promover um consumo rápido ou indiferente do lugar. O turismo só é positivo quando respeita a comunidade que o recebe.

JA9: A Praia dos Moinhos é um dos cenários naturais mais emblemáticos de São Miguel. Que responsabilidades sente a organização ao realizar um evento cultural num espaço com elevado valor ambiental e paisagístico?

Sentimos uma responsabilidade muito grande porque a Praia dos Moinhos não é apenas o cenário do festival. É a sua origem, a sua inspiração e também o seu limite.

A dimensão do evento, os acessos, os horários, a circulação, o som e a gestão dos resíduos têm de ser pensados em função das características do lugar e da proximidade da comunidade. O festival deve adaptar-se à paisagem, nunca o contrário.

Temos também a responsabilidade de deixar o espaço nas devidas condições e de sensibilizar o público para o cuidado com o território. Realizar um festival naquele local só faz sentido se a experiência cultural contribuir para aumentar o respeito pela praia, pelo mar e pelo património natural que nos acolhe.

JA9: É possível promover a descentralização cultural nos Açores sem colocar em causa a preservação ambiental dos territórios insulares? Que exemplo pretende o Azores Burning Summer dar nesse domínio?

FT: É possível, desde que a descentralização não signifique transportar para territórios sensíveis os modelos de eventos massificados dos grandes centros urbanos.

O nosso exemplo passa por adequar a escala ao lugar, controlar os acessos, reduzir a circulação automóvel, investir regionalmente e integrar educação ambiental na própria programação.

Descentralizar é aproximar a cultura das pessoas e valorizar diferentes territórios. Mas deve ser feito com responsabilidade, escuta e respeito pelos limites ambientais e sociais de cada comunidade. Cultura e preservação não são objetivos incompatíveis; devem fazer parte da mesma estratégia.

JA9: O festival tem apostado num modelo que privilegia a qualidade da experiência em detrimento da massificação. Esta opção faz parte da identidade do projeto ou resulta também de uma preocupação ambiental?

FT: Faz parte da identidade do festival e é, ao mesmo tempo, uma escolha ambiental. A Praia dos Moinhos tem uma escala própria, e ultrapassá-la comprometeria o conforto, a segurança, a relação com a comunidade e o equilíbrio do território.

Não queremos competir pelo maior cartaz ou pela maior lotação. Preferimos uma programação coerente, proximidade entre público e artistas e uma experiência em que as pessoas possam viver verdadeiramente o lugar.

Esta opção torna o festival mais singular, mas também comercialmente mais vulnerável, porque nos afastamos da programação pensada para grandes massas. Ainda assim, acreditamos que crescer não significa necessariamente receber mais pessoas. Pode significar melhorar a qualidade, aprofundar o impacto comunitário e tornar a operação mais responsável.

JA9: A edição de 2026 coloca a lusofonia no centro da programação, com especial enfoque nas diásporas africanas. O que motivou esta escolha e que mensagem pretende transmitir através deste alinhamento artístico?

FT: É uma escolha estética e cultural, mas também profundamente afetiva. A música que interessa ao Azores Burning Summer sempre passou por lugares de encontro entre África, Europa, Brasil, Caraíbas e Atlântico.

Não utilizamos a lusofonia como uma etiqueta uniforme. Queremos mostrar a sua diversidade e reconhecer as histórias, migrações e transformações que existem dentro desse espaço. Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Brasil e Portugal surgem como pontos de uma geografia musical muito mais ampla.

A mensagem é de aproximação através da diferença. O Atlântico separa-nos geograficamente, mas também criou relações culturais profundas. O cartaz procura celebrar essas ligações, colocando tradição e contemporaneidade, memória e futuro em diálogo.

JA9: No primeiro dia sobem ao palco nomes como Lura, Paulo Flores e Tabanka Djaz, referências incontornáveis da música de Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau. O que representa para o festival reunir estes artistas num mesmo palco, nos Açores?

FT: Representa a possibilidade de reunir três expressões fundamentais e muito distintas das músicas africanas de língua portuguesa.

Lura traz Cabo Verde, a sua condição insular e uma música onde a morna, o batuque e o funaná dialogam com o presente. Paulo Flores representa a força do semba angolano e uma escrita profundamente ligada à memória, à vida quotidiana e às pessoas de Angola. Os Tabanka Djaz afirmam o gumbé como elemento essencial da identidade da Guiné-Bissau.

Não é apenas uma reunião de grandes nomes. É uma noite que revela a pluralidade da Lusofonia e aproxima culturas com raízes próprias. Nos Açores, esse encontro assume um significado particularmente especial.

JA9: O segundo dia apresenta uma programação bastante diversa, com Capitão Fausto, Zé Ibarra e Throes + The Shine. Houve a intenção de mostrar diferentes formas de interpretar a música em português e as suas múltiplas influências?

FT: Sim. A coerência de um cartaz não depende de todos os artistas terem o mesmo género musical. Depende da história que constroem em conjunto.

Os Capitão Fausto representam uma das linguagens mais marcantes da música portuguesa da sua geração, cruzando pop-rock, psicadelismo, melodias cuidadas e uma escrita muito próxima do público. Zé Ibarra traz uma nova música brasileira, aberta à MPB, ao jazz, ao pop e à experimentação. Os Throes + The Shine unem Angola e Portugal através de uma combinação explosiva de kuduro, rock e eletrónica.

São três formas muito diferentes de criar em português, mas todas partilham abertura, reinvenção e energia em palco. Queremos respeitar o público que regressa e, ao mesmo tempo, desafiá-lo a descobrir.

JA9: Para além dos concertos, o festival integra cinema, literatura, saúde comunitária, educação ambiental, memória coletiva, ecodesign e mobilidade sustentável. Qual é a importância desta programação complementar na identidade do Azores Burning Summer?

FT: Esta programação não é um complemento decorativo. É uma parte central da identidade e da missão do festival.

O Cinema da Autonomia trabalha a história e a açorianidade e surge em 2026 para celebrar os 50 anos da nossa Autonomia; o Cinema na Praia cruza memória, identidade e ilhas do Atlântico; e o Letras n’Areia promove os livros, a leitura e o pensamento crítico. O VIVE aproxima a saúde da comunidade e o HABITAT desenvolve a literacia ambiental e oceânica junto das crianças.

O Moinhos Revival valoriza a memória afetiva do lugar, o Eco Market promove artigos de ecodesign e projetos de reutilização e reciclagem, e a Expo de Veículos Elétricos aproxima o público da mobilidade sustentável.

Estas iniciativas permitem chegar a diferentes públicos e prolongar o impacto do festival para além dos concertos. Música, cultura, ambiente, saúde e comunidade fazem parte do mesmo projeto.

JA9: Este ano, o festival integra a programação complementar da PDL26 – Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura. O que representa este reconhecimento e que contributo pode o Azores Burning Summer dar para este momento cultural da Região?

FT: A integração na PDL26 reconhece o percurso do festival e dá maior visibilidade ao trabalho que temos desenvolvido. Representa também uma responsabilidade acrescida: mostrar a qualidade, a diversidade e a contemporaneidade da criação cultural nos Açores.

O nosso contributo passa por levar esta dinâmica para fora do principal centro urbano. O festival acontece na costa norte de São Miguel, numa freguesia do concelho da Ribeira Grande, e demonstra que é possível apresentar programação nacional e internacional de qualidade num território rural e insular.

Queremos contribuir para uma Capital Portuguesa da Cultura aberta à ilha e à Região, capaz de aproximar diferentes comunidades e formar novos públicos. Os Açores não são apenas natureza e contemplação; são também música, cinema, literatura, pensamento e criação contemporânea.

JA9: Depois de mais de uma década de crescimento e afirmação, como imagina o Azores Burning Summer nos próximos anos? O objetivo passa por crescer em dimensão ou consolidar um modelo que privilegia a sustentabilidade, a qualidade artística e a ligação à comunidade?

FT: O objetivo não é crescer a qualquer custo nem transformar o Azores Burning Summer num festival de massas. Queremos consolidar um modelo de escala humana, com qualidade artística, responsabilidade ambiental e uma relação próxima com a comunidade.

Crescer, para nós, significa melhorar a experiência, aprofundar os programas VIVE e HABITAT, dar maior continuidade à programação cultural ao longo do ano e formar novos públicos. Gostaríamos também de desenvolver residências artísticas ligadas ao território e projetos no contexto da land art.

O desafio é evoluir sem repetir fórmulas e sem perder a identidade. A Praia dos Moinhos continuará a ser a origem, a inspiração e o limite do festival. O futuro passa por fazer melhor, com maior sustentabilidade e impacto positivo, não necessariamente por fazer maior.

 

PUB