Já escrevi acerca do facto de vivermos tempos de escárnio e maldizer sem precedentes, devido às potencialidades das redes sociais. Sempre que alguém acorda com uma indisposição, é a sanidade coletiva que sofre com os humores do reino.
Todavia, há momentos que continuam a surpreender, pela forma como somos confrontados/as com o que algumas pessoas chamariam de ‘escasso’, que é como quem diz infelicidade de pensamento.
Conheço Joel Neto de forma periférica. Nos últimos anos, aproximamo-nos, fruto de uma amizade e respeito que cresceu pelas posições que assumiu, enquanto acérrimo defensor de mais bom senso junto dos/as governantes da direita nos Açores. Com o tempo, o jornalista e escritor tornou-se num dos pilares do combate ao conservadorismo que cresce entre nós. Sem receio, nem rodeio, chateou amizades antigas e enfrentou poderes vigentes. Pelo meio, ainda houve tempo para ajudar a criar uma das mais importantes estruturas culturais da Região, na Lar Doce Livro.
Por isso mesmo, o primeiro conselho deste texto é para o Joel. É um alerta de que a página de Wikipédia de seu nome está desatualizada. Não só não refere o aumento do número de membros da família, como também afirma que integra o Conselho Regional de Cultura, algo que, tanto quanto me é possível saber, não é verdade.
É que Joel Neto foi parte integrante do começo dessa estrutura, e foi também voz de recomendação nesse setor, em vários momentos da história das nossas ilhas. O reconhecimento veio pelas mãos de quem o afastou, e tentou sanear e censurar, pelas mãos que manuseiam o Palácio Bettencourt, e pelos sussurros das sombras que ali habitam. Foi retirado do Conselho de Cultura, e há até quem diga que houve tentativas de remover os seus livros de lugares-chave da nossa praça.
Nesse mesmo comprimento de onda, voltou recentemente a ser alvo de uma campanha concertada de ataques e escárnios, frequentemente provenientes de vozes que respeito e sei serem melhores do que isso. Nas redes sociais, a crueldade das palavras agravou-se e os espinhos das frases feitas atingiram, em toda a linha, uma família, um homem livre e uma boa vontade de denunciar a injustiça.
Conheço bem algumas das pessoas que agarram a lança que nele se espetou. Transformo-me conselheira, para deixar uma mensagem clara. Este não pode ser o caminho. Nem de quem governa, nem de quem quer governar. Nunca poderá um governante atacar um governado, de cima para baixo, ainda mais quando resulta do ato de assumir as dores de quem, oportunamente, pode espetar a lança no governante.
Voltaire falou, um dia, da impunidade dos tiranos e da mediocridade dos que se fingem inocentados. Sousa Lara, atual ideólogo dos salazaristas, ficou na história pela perseguição infundada que fez no tempo em que era Secretário, ao escritor que foi depois prémio Nobel, José Saramago. D. Duarte, rei quatrocentista, escreveu o Leal Conselheiro para nos avisar sobre a ética, a moral e a falta delas nos corredores do poder.
O conselho, portanto, não pode ser outro senão o do bom senso. Já muito se falou. Se queremos unir o arquipélago nos dias e nas efemérides que se seguem, é preciso afastar desleais conselhos e pensamentos artificiais que nos prejudiquem.
Qualquer outra possibilidade terminará numa terra de cegos. Ainda há tempo para deixar de lado os rancores. Citando Jénifer, ou a Princesa de França: “Numa ilha, as coisas esquecem-se mais depressa.” Que saibam esquecer a guerra, para trabalhar a paz.




