Os resultados das provas finais do 9.º ano deveriam preocupar-nos. Não apenas porque as médias baixaram ou porque a Matemática continua a ser uma dificuldade para tantos alunos, mas porque estes números são o reflexo de um problema que Portugal insiste em tratar como episódico quando, na verdade, é estrutural. As médias sobem, descem, e o país discute durante alguns dias se a prova era demasiado difícil ou se os alunos estudaram pouco. Depois, passa-se à frente, mas não devia ser assim.
Os resultados devem servir para fazer perguntas. E uma das primeiras é se tantos alunos chegam ao final do 9.º ano com dificuldades em Matemática, estamos perante um problema dos alunos, dos professores, das escolas, das famílias ou do próprio sistema educativo? A resposta, provavelmente, não está num único lugar. Já em 2025, cerca de metade dos alunos não tinha conseguido obter uma classificação positiva na prova de Matemática do 9.º ano. Na altura, os resultados mostravam que 49,2% dos alunos tinham superado os 50 pontos, numa escala de 0 a 100. Ou seja, a dificuldade não apareceu agora. É um problema que persiste, e quando um problema persiste, a responsabilidade não pode ser colocada exclusivamente sobre quem o sofre.
É evidente que os alunos têm responsabilidades. Estudar, trabalhar e adquirir conhecimentos exige esforço. Não podemos construir um sistema educativo onde qualquer dificuldade seja imediatamente explicada pela falta de apoio ou pelas circunstâncias externas. A escola deve exigir, avaliar e preparar. Mas também não podemos aceitar que o insucesso se torne uma espécie de normalidade estatística. Se um aluno tem dificuldades, devemos ajudá-lo. Se milhares têm dificuldades, temos de olhar para o sistema. E se, ano após ano, continuamos a encontrar os mesmos problemas, talvez esteja na altura de admitir que as respostas que temos dado não estão a funcionar suficientemente bem.
A Matemática é um caso particularmente importante porque não é apenas uma disciplina. É uma ferramenta fundamental para compreender o mundo, tomar decisões e prosseguir estudos em inúmeras áreas. As dificuldades acumuladas nesta disciplina podem condicionar percursos escolares e profissionais muito antes de os jovens terem capacidade para perceber as consequências. Por isso, estes resultados deveriam ser um alerta para uma discussão mais séria sobre o ensino da Matemática em Portugal.
Não basta dizer que os alunos precisam de estudar mais. É preciso perguntar se estamos a conseguir ensinar melhor. Não basta exigir mais esforço às famílias. É preciso perceber se todas têm as mesmas condições para acompanhar os seus filhos. Não basta pedir aos professores que façam mais. É preciso garantir-lhes condições para ensinar. E há ainda uma questão que não podemos ignorar que é a desigualdade.
Os dados divulgados anteriormente sobre os resultados escolares mostram padrões persistentes, nomeadamente melhores resultados entre raparigas e desempenhos mais baixos entre alunos em situação socioeconómica mais vulnerável. Isto significa que o insucesso escolar não é apenas uma questão de capacidade individual. É também uma questão de oportunidades. Talvez seja este o ponto que mais deveríamos discutir.
Portugal não pode aceitar como inevitável que tantos jovens terminem o ensino básico sem dominar conhecimentos fundamentais. Nem pode transformar os exames numa simples competição para saber se a média subiu ou desceu. Um exame não é nem pode ser apenas uma nota. Na minha opinião, funciona como uma espécie de radiografia, ou um retrato, ainda que incompleto, daquilo que conseguimos ensinar. E se evidencia dificuldades persistentes, a resposta não pode ser procurar culpados todos os anos mas sim procurar soluções.
Porque, no final, quando um aluno tem negativa, há um aluno que precisa de ajuda. Quando metade dos alunos tem dificuldades, temos um sistema que precisa de reflexão.




