Aqui na beira do precipício, enquanto esperamos pelo passo em frente, é mais urgente do que nunca continuar a falar de cultura. A semana passada, pelo meio do apelo à reflexão sobre o sexismo, deixei a porta aberta para retomar o tema. E hoje revela-se, ainda, mais urgente, porque a última semana foi repleta de saudosismo em torno destas questões, polvilhadas por uma ou outra possibilidade de boa nova, que aguarda desenvolvimentos.
Comecemos pela proposta de alteração integral ao RJAAC, que faz a gestão dos investimentos que apoiam o trabalho de agentes culturais na nossa região, apresentada pelo IL. Há muito de interessante no documento apresentado, mas peca pelo subtil, escondido sob o manto da “equidade”, com uma proposta que revela, logo nos seus considerandos, um menoscabo pelo conceito de cultura enquanto atividade profissional, remetendo-a para aquilo que se faz nos tempos livres, quando não há nada que preste a passar no reality show da esquina.
A ideia não é nova, e voltou à praça pública não só pela dita proposta liberal, mas também pelas vozes que se propagam em jornais e redes sociais, retomando a ideia da cultura “dependente” de subsídios, transformando, quem procura fazer da cultura a sua atividade profissional, em “parasitas” da cultura.
A cultura é uma obrigação essencial. A falta de cultura é tão criminosa quanto a ação do triste ministro da privação do ensino ou da patética ministra da privatização dos hospitais.
Entretanto, regressou o Conselho Regional de Cultura, após outra reunião falhada com agentes culturais, onde voltaram a ser discutidas as mesmas necessidades apontadas há um ano, há dois ou há três. Pode ser que seja desta que quem serve, escuta.
A dúvida razoável permanece, principalmente quando há a salivante possibilidade de aprovar uma proposta para iniciar a privatização definitiva de mais um setor. Como correu tão bem com os CTT, pode ser que com a Cultura a coisa melhore…
Por fim, duas palavras de tímida esperança, já transmitidas noutras ocasiões, mas que importam recordar. Primeiro, para as declarações públicas que vão surgindo em vários planos, em nome do Governo Regional, referentes às comemorações dos 600 anos da Descoberta dos Açores. Por oposição à decisão de Montenegro, de enfiar o maior número de dinossauros políticos numa sala, abanar e procurar com que resulte uma celebração sobre Portugal, Bolieiro parece ter reconhecido a necessidade de contar com pessoas interessadas, com formações consistentes, para pensar um projeto que não seja apenas cortar fitas vermelhas e cerimónias à porta fechada. Aguardo, com algum ceticismo.
O mesmo se passa em relação ao Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, que agora chegou a Lisboa, para ser feito nos Açores. Resultado de uma manifestação popular em torno da cultura com contornos únicos, nas últimas décadas. Depende do Governo da República, que deverá agora ser pressionado por quem nos representa. Espero que sim. Tenho dúvidas, mas vou acreditando. Os Açores merecem.




