Autor: PM | Foto: PM
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O gabinete de arqueologia da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, nos Açores, vai realizar em agosto escavações num local privado, após alerta para fragmentos de cerâmica do século XVI.

Nesinga Oliveira, arqueóloga e coordenadora do Museu Municipal de Vila Franca do Campo, disse hoje à agência Lusa que a vila é “um local especial, muito original nos Açores e mesmo em Portugal”, porque detém “todo um período e um acontecimento que passou pela catástrofe [terramoto] de 1522, que conserva vários testemunhos arqueológicos do passado”.

“Sempre que existem algumas obras, mesmo em habitações particulares, nós [gabinete de arqueologia do município] somos chamados ou alertados para a ocorrência de achados arqueológicos e foi o que aconteceu”, disse.

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E prosseguiu: “Estamos muito gratos, inclusivamente pela proprietária do imóvel nos ter contactado no ano passado pelo aparecimento de alguns fragmentos de cerâmica que conferem um período, uma cronologia, do século XVI.”

Segundo Nesinga Oliveira, já foi feita uma limpeza de corte no local e vai ter agora início a escavação de uma sondagem, prevendo-se que decorra entre a segunda semana de agosto e o início do mês de setembro.

No seguimento do alerta, a arqueóloga referiu que o município de Vila Franca do Campo “tem todo o interesse” em salvaguardar, musealizar e proceder ao estudo científico dos materiais que venham a ser encontrados nas escavações.

Também referiu que, nestas situações, há “sempre a expectativa” de os investigadores encontrarem “vestígios do deslizamento de terra e do terramoto de 1522”, da ocupação anterior, ou mesmo “da reocupação do espaço depois da catástrofe”.

No local foram detetadas cerâmicas e algum espólio osteológico de fauna, que já estão “em processo de estudo”.

“Alguns fragmentos já foram identificados e agora esperamos que se encontrem mais vestígios que nos elucidem sobre esse período e o quotidiano da vivência aqui na vila”, indicou.

Na madrugada de 22 de outubro de 1522 Vila Franca do Campo foi atingida por um terramoto que provocou um deslizamento de terras que “soterrou grande parte da vila, matando milhares” de residentes, segundo informação disponibilizada pelo município na sua página da Internet.

A reconstrução da vila “foi feita mais a poente, por ordem de D. João III, enfrentando resistências de proprietários de terrenos”.

Segundo a investigadora e docente da Universidade dos Açores Susana Goulart, o início das romarias na ilha de São Miguel estão associadas ao vulcão de 1522, em Vila Franca do Campo, referindo que este “foi, de facto, um episódio dramático, tendo morrido cerca de duas a cinco mil pessoas”, mas este foi “muito circunscrito à localidade, que na altura era o grande centro da ilha”.

Em 22 de outubro de 2022, na passagem dos 500 anos da tragédia, o município inaugurou um monumento num jardim da vila.

No local recorda-se que na madrugada daquele dia, Vila Franca do Campo “foi abalada por um violento sismo, com subsequente aluimento de terras, que soterrou toda a vila”.

“Foi o único grande desastre natural que Vila Franca sofreu desde o povoamento e que se estima ter provocado cerca de 3.000 vítimas. Este trágico acontecimento deu origem às Romarias Quaresmais da ilha de São Miguel”, lê-se.

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