Tomo por emprestado o título de Sttau Monteiro. Com as devidas adaptações. Afinal passaram quase cinquenta anos, os personagens não são Gonçalo e António, tão pouco se perscrutam fundamentos ideológicos do Estado Novo ou a angústia de quem se sente impotente para eliminar toda a sorte de desigualdades.
A angústia serve-se fria, mais logo ao jantar, na véspera da publicação dos resultados dos exames nacionais (quando escrevo é esse o calendário que ainda vigora).
Dir-me-ão que é assim todos os anos. E sou tentado a concordar. Mas falta acrescentar este longo folhetim da digitalização das provas, da correção por itens, do acesso à plataforma.
Duas semanas e meia, depois da realização do último exame, não bastaram para propiciar ambiente e discernimento aos professores-corretores e amainar a ansiedade dos alunos. O ministro da Educação ainda tenta explicar o inexplicável e a oposição, sedenta de palco, desfila pelas televisões com propostas de audições e comissões de inquérito, como se o problema se resolvesse com mais horas de debate.
Neste drama tecnológico, os alunos, quais figurantes involuntários, continuam à espera, não de promessas ou debates, mas de algo simples, de resultados atempados e rigorosos.
O acesso ao ensino superior é uma corrida de obstáculos, onde cada atraso, cada falha na plataforma, cada comissão parlamentar, é apenas mais um muro a saltar.
No fim de contas, tudo digital, tudo moderno, tudo inovador, só os alunos ficaram em modo de espera. Com angústia para o jantar.
Quem disse que o interesse dos alunos era relevante?




